Escrever?

"Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga" (Gilles Deleuze)

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Sono, tecnologia, capital e escravidão

 


 


 

Não durmo. É difícil. O corpo está sobrepujado. Estaria sofrendo a síndrome do “pardal de coroa branca”? Sete dias por semana sem precisar dormir.

Fecho os olhos, mas estou envenenado. O corpo já não reconhece nem o espaço nem o tempo do descanso. Sob as pálpebras dois olhos insistentes resistem, ou melhor, se entregam aos mecanismos de uma nova época. De um novo normal?

Jonathan Crary na obra 24/7 Capitalismo tardio e os fins do sono disserta sobre o assunto. Fico preocupado. Crary ao introduzir o tema de seu livro já nos informa, lá na página dezesseis que bastaria um período relativamente curto sem dormir para sermos induzidos, inclusive, à psicose.

Penso nas noites em que as séries, os filmes, as músicas, os livros tentam amenizar minhas angústias. A internet, as redes sociais que “iluminam” toxicamente meus óculos, olhos, cérebro e corpo. A cama é um martírio. E eis o problema... Amenizam ou alimentam o problema?

“A negação do sono é uma desapropriação violenta do eu por forças externas, é o aniquilamento calculado de um indivíduo.” (CRARY, pag.16. 2016)

O que aniquila o meu eu? A falta do sono ou tudo que não me deixa dormir? E o que seria esse “tudo”? De que máquina infernal é produzida essa necessidade que tenho de “aproveitar o tempo todo.”  Dormir seria uma fraqueza?

De acordo com Crary, lá pelos meados do século XVII, o sono teria se afastado de uma suposta posição estável que ocuparia nas concepções aristotélicas e renascentistas já ultrapassadas. O sono seria incompatível, então, com uma moderna noção de produtividade e racionalidade. Descartes, Hume e Locke seriam alguns dos filósofos que desprezavam o sono por sua irrelevância para o funcionamento da mente e para a busca do conhecimento. Consciência e vontade, noções de utilidade, objetividade e ações em interesse próprio, de acordo com o autor, teriam desvalorizado a função do sono. (Crary, pag.19. 2016).

Penso em minhas atividades como professor. E como acabo deixando que a noite, e sua suposta calmaria, venha ao meu socorro. E como a internet “ocupa” sistematicamente meu tempo de vida. E quando penso em internet penso logo em redes sociais, e diretamente e “logicamente” em Facebook. Conversar, ver, ler sobre tudo e todos... e então me vem uma frase de Evgeny Morozov, do livro Big Tech, a ascensão dos dados e a morte da política. “O Facebook está interessado em ‘inclusão digital’ do mesmo modo que os agiotas se interessam pela ‘inclusão financeira’ – ou seja, em função do dinheiro.” (MOROZOV, p.55. 2018)

Tudo é dinheiro e poder. Ou poder e dinheiro. “No paradigma neoliberal globalista, dormir é, acima de tudo, para os fracos.”(CRARY, p.23. 2016)

Somos insistentemente “carregados” com conceitos de vida que institucionalizam esse nosso “novo” normal. E não é só pela ameaça do coronavírus. O covid-19 faz parte do grande pacote que escolhemos como nosso presente. Presente aqui como atualidade, mas também como algo que se dá a alguém.

Se o sono ainda não conseguiu ser colonizado de forma completa pelo capital, nossa forma de ver o mundo já foi. Esse tema da imagem que acaba sendo colonizada pelos algoritmos e pelos interesses das grandes corporações do ramo, é muito bem colocado pela autora brasileira Gissele Beiguelman na obra Políticas da imagem, vigilância e resistência na dadosfera. É dela o termo “eugenia algorítmica do olhar” (BEIGUELMAN, p.136. 2021) De acordo a autora, nossas formas de ver estariam tão afetadas pelos algoritmos e pela política pela qual são produzidos, que até a nossa forma de entendermos nossa memória estaria sendo modificada através da massificação e padronização da imagem nas redes sociais, internet e aplicativos que manipulam essas mesmas imagens.

Enquanto escrevo esse texto, escuto “I’ve got a woman”  de Ray  Charles. Não escolhi a música, nem o cantor. Um aplicativo de som, através do meu acesso, meus dados, formulou uma playlist do “meu gosto”. E é assustador. Tudo o que somos, gostamos, lemos, dizemos... tudo está na REDE.  E a rede suga todos os meus dados. O sono talvez interrompesse um pouco essa vampiragem. Mas os dentes sedentos do capital e da grande BIG TECH não estão nem um pouco interessados em pausas para o lucro. O sono nesse novo paradigma é o inimigo do capital e interromperia sistematicamente a grande alimentação de dados que garante o poder das grandes empresas de tecnologia. Morozov lista as cinco maiores, que seriam Apple, Google, Facebook, Microsoft (p.147). Só o sono resiste ao ataque insidioso do Big Data. Alguns ainda resistem. Sinto-me fraco, e às vezes acho que sou apenas um grande conjunto de dados, como a carne de um animal dividida por partes e vendida nos açougues.  Como ser mais “humano”? Talvez dormindo e sonhando fora dos limites do algoritmo e do interesse do capital.  Tenho me esforçado em cansar o corpo para facilitar o abraço do sono. Ainda está difícil. Termino esse texto com a expectativa de tomar um chimarrão olhando para as árvores do meu vizinho. É quase angustiante evitar ligar um celular, uma TV, o computador.. Se o medo do coronavírus nos impôs essa condição de resguardo, também, de certo modo intensificou nossa submissão às grandes e multimilionárias empresas de tecnologia.

 

Referências

BEIGUELMAN, Giselle. Políticas da imagem, vigilância e resistência na dadosfera. São Paulo.UBU. 2021.

CRARY, Jonathan. 24/7, Capitalismo Tardio e os fins do sono. São Paulo. UBU. 2016.

MOROZOV, Evgeny. Big Tech, A ascenção dos dados e a morte da política. São Paulo.UBU. 2018.

 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

O corpo na janela

 


Há um mundo que não é mais. Não é mais o mesmo. O mundo. Aquele de sorrisos e dores conhecidas. Não. Não é mais o mundo. É outro. É um mundo distante ainda. Da janela. É um mundo pela janela.

O olhar se alimenta desse mundo, mais do que qualquer coisa. Procura no mínimo. Vê o que antes nunca viu. O olho agora é lanterna potente. Para alguns. Para outros não. Sem luz. Olho sem sol. Mesmo na janela ardente. Para alguns até mesmo o olhar murchou.

O mundo sempre foi perigoso. Mas o corpo enfrentava os perigos. No corte, no soco, no tombo... o corpo enfrentava as malvadezas do mundo... Presente. Ele estava lá para vencer ou perder. Atuante.

Neste novo mundo o corpo recua. Esconde-se. É invisível o inimigo. E não há o que fazer contra ele. O corpo perde, morre se extingue. Resta ao corpo o refúgio das janelas. E dos olhos nas janelas.

A rua é única e simplesmente a rua. Pedras,  casas, um cão feliz que passeia. Poucos carros. A rua é um silêncio que dói e atravessa a janela. Um silêncio que agride que busca a vida. Pela janela.

O cão perambula feliz nesse mundo estranho. Os pássaros não precisam de janelas. E seus movimentos causam inveja ao corpo e aos olhos presos pelas janelas.

O verde livre dos pés, das rodas, do veneno... Abanam para as janelas. O vento desse novo mundo é arriscado. Mas todos dariam um mês de suas vidas para correr e abrir os braços e voar. Ser pássaros. Pássaro sem pedra nem gaiola.

Atrás da janela somos pássaros. E é triste ser cativo e cantar.

O som das casas não para. Os filmes não param as lives não param.  Uma tentativa de enganar-nos que ainda temos movimentos. E temos. Temos um movimento estranho e compassado. Quase ritual.  E buscamos no desespero e na monotonia algo que nos de as asas do pássaro que se perde do olho. Longe os pássaros.

Pelas janelas os vultos se abanam constrangidos.  “tudo bem?”  e os sorrisos tentam modificar as faces. Duras faces.

A vida exubera. Toda a vida que não é humana.  A humana espera. Espera para ver  o estranho mundo que à espera.

Os livros se amontoam, uns lidos outros modificados de lugar. Ler não é fácil, sorrir não é fácil, respirar não é fácil nesse mundo.

O corpo é a casa. Os olhos brincam de ser o corpo pelas ruas. Percorrem esquinas ajudados pela memória, pelo costume... entram nas padarias, nas lojas, no mercado. Fechados os olhos  veem muito mais. O mergulho pelas imagens que ficaram é muito mais profundo.

E pela janela fechamos os olhos para ver o que éramos o que fazíamos. Alguns avaliam, questionam. Outros inclusive juram fazer tudo diferente. Outros, ajoelhados, rezam pra tudo ser como antes. Mesmo o Antes não ser ideal, ser injusto e cruel. Outros ainda esperam mais justiça e igualdade.  O mundo se regenera, se transforma, vibra na esperança e na dor de todos. Sismicamente o planeta modifica suas leis gerais, deixando claro que somos apenas mais uma espécie. Não a mais importante, não a melhor.  Somos apenas mais um tipo de vida diante de tanta vida.

Somos pequenos, as janelas nos dizem isso. Somos pequenos, nossas misérias nos afirmam isso. Mas somos vida. E a vida é um elemento em eterna transformação. Esperemos que quando as janelas abrirem-se, quando as portas forem finalmente abertas.... Outras criaturas  surjam para ver os pássaros e os cães.

Gente mais livre e feliz como os pássaros, gente mais simples como os cães.

Ronie Von Rosa Martins

 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Resistindo




Há um vazio. Cheio de mim. Oco. Eu. O vazio?
Corpo. Porção de mim no todo vazio. Oco.
Copo. Porção de vinho. Em mim. Assim.
Em mim. Um pouco de todo o resto. Nada.
Todo o eu. Assim. Um copo. Oco. Vazio.
A unha não gruda na parede. Nem sustenta o peso do corpo que sofre. Arranha apenas a superfície do corpo. Que prende. Repreende.
A unha não rasga nem fura essa estrutura. Idêntica. Cara. Meu rosto que é o teu. Que é o nosso. Único rosto. De sorriso triste. De olhos desligados. Não, a unha não salva, nem solta. Nem defende a unha. Arranha apenas. Recusa, renega, reclama.
A unha reclama na parede do corpo. Reclama com fúria, em linhas de sangue. Os caminhos pra fuga. Pra festa. Pro vôo.
Mas o corpo não deixa. O corpo e seu peso. Sua ordem. Organismo. Cinismo do rosto. Estrutura. Consumação das paredes. A altura do muro.
Um murro? Nem murros nem unhas. Profunda e ancestral é a construção. Identidade, atitude, tradição, memória... Cimento duro.
Então vinho para regar o corpo que chora...e prende. Álcool pra encantar a estrutura que oscila. Drogas pra amaciar a fúria do corpo, seus limites, suas esquinas escuras, seus espaços frios suas masmorras...
Roupas pra cobrir a vergonha do corpo. Panos pra encobrir. Panos para produzir o próprio corpo. Muitos panos para a nova estética, para a produção do novo rosto. Cores também para alegrar e colonizar o corpo.
Marionete. Fantoche. O corpo dança a valsa que ouve e acredita. E no fundo. No vazio. Eu. Ou nós. E o oco do copo. E o vazio.
Então que venha a palavra. Que lavra o terreno baldio. Frases, vírgulas, verbos. Letras! Escreva, fale, comunique.
Repita o eco. Cante o refrão. Sorria! Abrace o irmão. Aceite...

Mas nas paredes do corpo, nas profundezas do corpo...  unhas....

segunda-feira, 18 de maio de 2015

RODAR


      

Caminhar é bom. Rodar é diferente. Nem tão rápido. Medida certa, tanto lenta quanto no furor do vento. O movimento.
É do coração... e das pernas que cansam numa alegria satisfeita. Simetria com chão, estrada e sombra. A sombra segue sempre e o olho à sombra. Segue também. E é o tempo da roda. Movida pela vontade. Músculo e paisagem. Pois o que se vê também é a bicicleta, e o passeio, e a passagem e o movimento todo. E o vento. E o sol.
O rosto é visto e a voz ouvida. Do outro que no contrário movimento faz que fica e continua em outro ritmo.  Os carros não contam. Frios e limpos. Rápidos e cheirando a gasolina. Ovos de lata que chocam as vaidades de seus motoristas. Que nada vêem. Embevecidos que estão por seus próprios reflexos que interpretam importâncias para pequenos espelhos. Os carros não contam.
Contam as árvores todas e a grama que nasce. E a roda que na velocidade exata percebe um verde que se singulariza de outros tantos verdes que já não são os mesmos. Nem os sorrisos. Diferentes todos. E as caras fechadas. Todas diferentes. E belas. A visão libertada de janelas. Olhos que vêem, mesmo no precipitar das duas finas rodas, rugas e vidas que se enredam, se enroscam...
Há também o som. Ou o fone e a escolha sonora. Música para rodar. Música para se perder para além do asfalto. Fugir do asfalto. No chão e no buraco. Deslizar. Fluido. Parar para atravessar a tartaruga, vislumbrar o sofá antigo e vermelho jogado inconseqüentemente no pequeno riacho, que serve de assento para todos os fantasmas e criaturas do campo. Se o alcançasse, também descansaria alguns momentos ali. Mas, agora, é templo sagrado de mistérios e ninho. De pássaros ou cobras. Somos todos. Um pouco de cada. Cobras e pássaros. Voamos e rastejamos. Então rodar. Mesmo que o braço canse e a perna chore. O mundo está esperando. Mesmo o pequeno espaço que conseguimos alcançar. A quantidade de terra que conseguimos atravessar. A ladeira que nos ameaça e se insinua. E o pneu que murcha. E as costas que cansam.

É o espaço e o tempo outro. Longe ficam o resto todo. Prisões e apreensões sociais, vaidades e obrigações, deveres aparências. Só a sombra aprendendo a ser nada. A bicicleta e o homem. Metamorfose de carne e metal na construção interessante de um nada necessário. Deserto. Repleto de tantas coisas, mas sempre vazio. Aberto para todos os caminhos impossíveis.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O velho que lia





Sábado. Na janela o sol não se intimidava com a tentativa de impenetrabilidade. Pelas frinchas dava jeito de atingir-lhe o corpo.
Na cama. O corpo permanecia. Largados os braços. Pernas também. Cobertas no desalinho do pesadelo. O escuro teimava em permanecer.
O despertador já havia gritado. O galo também. O mundo já havia gritado. E ele estava atrasado.
Atrasado para o grito do corpo.
No chão. O livro. A leitura que fizera à noite. Lia para espantar seus demônios. Armadilhas infalíveis para aprisionar criaturas das trevas. Abria o livro nas madrugadas e esperava que todos os seus medos se manifestassem. E os consumia em forma de texto. Palavra. Era um devorador de demônios. O maior de todos eles.
Aprisionava em seus livros todas as suas angústias.
E em sua pequena biblioteca, às vezes ouvia os sussurros e infâmias que os prisioneiros lhe endereçavam.
O mundo era muito estranho.
Velho. Tão velho quanto a quantidade de rugas que rizomaticamete envolviam toda a sua pele.
Já em pé. Sorvia o chimarrão tão quente e amargo. Apreciava a pequena bruma que se esvaia do calor da água e da erva da cuia. O cheiro... Solidão tem cheiro?
Caminhou até o quarto. Apanhou o livro do chão e cuidadosamente o colocou na estante.
A neta um dia lhe perguntou porque vivia sozinho “quem disse que estou só?” respondeu sorrindo. O filho, homem de certa obesidade aproximou-se tentando argumentar sobre os perigos de morar sozinho, questões de idade e limitações do corpo, e ele sorria. Quando o filho afastou-se. O velho pegou a menina no colo e contou-lhe as histórias de seus livros. Dos seus medos e angústias aprisionados nas linhas dos textos... os olhos brilhavam com a intensidade da admiração, surpresa e medo. “Eles estão presos?”
O sorriso do velho se abria. “Todos eles.”
“Mas e se eles fugirem?” “Às vezes acontece. Mas toda a noite eu os caço novamente e os apanho. E os guardo ali.” O dedo apontando para as estantes. O coração da menina pulsava. Os olhos esbugalhados faiscavam de excitação e temor.
Então o tempo e a morte vieram, e as flores, e as rezas, e as lágrimas e as dores.
E nestes interstícios da vida, quando a memória parece insistir em abrir uma brecha no muro da realidade e do presente, ela, a menina que agora já não era lembrava do avô.

E toda vez pela manhã quando ia observar o pequeno Diego. O filho. Levantava do chão o espesso livro de contos de fadas. “Cuidado mãe.” Ainda sonolento ele dizia. “Eles podem fugir.”

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Pirulitos e velhos




Era  um fusca. Branco. Antigo. Dentro ela. Jovem. Bonita. Simpática. Na rua ele. Bicicleta e suor. Fone no ouvido. Música encharcando corpo e espírito. Corpo e espírito no corpo musical do momento. Um olhar. Simples e curto. Distante e tão incrivelmente perto.  E os carros, e as pessoas, e o tempo sem dó. Dor. E o nunca mais. E o para sempre.
O agora é diferente. Velho e sem bicicleta. Reivindicação dos joelhos. Das costas e do sem brilho dos olhos seus.  Agora sem fone nos ouvidos. Já não ouvia nada. O som era o da imagem. Inventava sons para o que via. E era o banco da praça. Sempre ali. Fugir sempre da casa. Ser velho exigia esse esforço. Para o bem de todos. Dele mesmo.
As bicicletas passavam. E ele ficava, mas ia também. Girava no cérebro, os pedais e o esforço. E lembrava do vento na cara. E o suor. Do coração batendo forte... pôs a mão no coração para sentir. Nada. Não sentia muita coisa.
O menino chupando um pirulito sentou ao lado. Olhos grandes de entender os velhos. "você tá triste?" Foi a pergunta. Os olhos de já não entender as crianças se voltaram pro menino. "Não." A criança levantou-se, tirou um pirulito do bolso e entregou. Correu para apagar sua imagem dos olhos antigos. Foi-se. Na mão o doce. Os olhos vetustos e a rua que ia e voltava sempre.
A senhora com bolsas passou e sorriu. O pirulito era cômico... ou trágico. E ele ainda não sabia o que fazer. Drama ou comédia? Não gostava muito de comédias, mas já estava velho demais para  dramas. Para o drama é necessário um coração vigoroso e cheio de sentimentos. Seco era o dele. Antigo.
Do outro lado da rua um casal discutia. O drama. Jovens perdidos em intensidades. Belo e estranho. Percebia-se a atração. Gesticulavam furiosos, mas pediam tudo um do outro. Amor? O que seria o amor. Ela fazia menção de ir. Ele segura-a do braço, moderava o tom da voz, suplicava. Ela chorava. Lágrimas e dizia palavras que a rua engolia. Se abraçavam. O beijo. Os corpos juntos. Vibração. E iam também. Mão ligadas, sorrisos envergonhados e felizes. Mais uma vez voltavam. Quantas vezes ele os vira ali. Discutindo e voltando? Várias.
Seria aquele o lugar ideal para resolverem seus problemas amorosos. Haveria um lugar adequado? Não sorriu. 
Uma leve brisa soprou algumas folhas caídas. Giraram no ar. Bailado contemporâneo e pós-moderno. Bailarinas bêbadas e alucinadas. Frenéticas. E caíram. Todas juntas. Mortas novamente. As folhas. E ele. Pensava que nunca aprendera a dançar. Acompanhar o ritmo de uma música. A potência de uma coreografia, ritual de acasalamento e namoro. Sempre fora difícil. Dançar era movimentar o corpo, vulneralizar-se para as forças inusitadas da música. E ele era pedra. Sempre fora. Duro. Tentara algumas vezes. Mas era um desastre. Parou. E ali estava.
O joelho doía. Sempre doía. E as costas.
E o pirulito doce. E um certo constrangimento. A infância parecia querer fazer troça de sua mão gelada e enrugada. Jogar fora? Não parecia certo. Esperar outra criança? Não seria confundido com esses miseráveis assediadores de menores? Jogar fora. Afinal ela já não havia ido? A infância?
Era colorido. E os olhos antigos e secos observavam. O colorido do doce. Seria o menino um anjo ou um demônio? As crianças sempre eram os  dois. Anjos e demônios. Ele fora. Medonho quando pequeno. Correr na rua. Jogar taco com os amigos. Bolinha de gude. Queria esboçar um sorriso. Mas não. A boca estava selada para esses prazeres. E nem a memória conseguia desenferrujar aquela porta antiga.

E então ele viu novamente. Não era o fusca de quarenta anos atrás. Era uma cadeira de rodas. Uma senhora grisalha empurrava outra um tanto mais velha. Rosto fechado. Olhos apertados pela claridade do sol. Triste. As duas. Mãe e filha. A filha e o fardo. O fardo e a filha. Ela sabia. Ser empurrada. Direcionada. A cadeira. Mesmo com rodas era uma limitação. "Tudo bem mãe?" A voz da filha. E a rua em silencio parecia conspirar para que ele ouvisse tudo. Ou nada. A outra mulher não respondeu. Triste. Mas os olhos se encontraram. Breve instante. Segundo. Nele um estremecimento. Algo estranhamente arrepiante. E rapidamente ele enfiou o pirulito na boca. Plástico e tudo. A cena congelou. Segundos, e o silêncio foi rompido pela gargalhada solta e desesperada da mulher. Em seguida ele se precipitou a rir também, com todas as suas rugas e dores. Estavam vivos pensou. E continuava a rir enquanto ouvia ao longe as gargalhadas da mulher na cadeira de rodas. Estavam vivos!

domingo, 11 de janeiro de 2015

CHUVA




Seria interessante. Escorrer. Correr silencioso. Infiltrando-se em toda matéria, levando outras...
Ser água. Em tudo estar.
Menos nesta folha. Neste texto. Longe do meu espaço. Quadrado. Espaço que delimita meu corpo físico, clínico. Meu texto. Contexto.
A janela chora minha angústia. E dissolve o vidro em memória aquosa. Lembrança. A água entrando... conectando em sinapses  uma existência em que o fragmento é a verdade.
A palavra não anda. O texto não caminha em estrada definida... se perde. Perde-se no sem palavras da chuva. Nuvem.
Escura em devir permanente. Raios? Trovões?
A secura desta peça me sufoca. A tela do computador dociliza a alma. A raiva.
O homem precisa de raiva. Precisa de indignação. Assim como o mundo precisa da tempestade. Da chuva...
Nem chover consigo.  A água me é escassa; no corpo e na alma. Velho. A idade seca o homem. Drena a vida. A água...
Ainda lembro... lembro das lágrimas juvenis. Do rosto encharcado e das dores advindas de minhas desilusões amorosas. Água. Saudade da água.
Hoje tenho o texto. a palavra e a memória. Poço profundo de onde bebo alguma vida. Escassa. Alguns breves sorrisos.
A solidão não irrita ninguém. Pelo menos não a mim. O que mi irrita é a ausência de vida. Essa escassez da água no corpo. Esse esvair de intenções. Sonhos.
Meu texto procura a liquidez da chuva... fluidez.
A terra está encharcada. A água faz possas. Liga as possas e faz pequenos lagos que escorrem. Fluem. Luzes no céu. Barulho. Estrondo de vida.
Minha folha está morta. Branca e ousada, me desafia. Me julga em sua possibilidade de conter o reflexo da vida em letras e idéias. E nua e alva e crua zomba da decrepitude da minha criatividade. Está frio?
Sempre está frio para os velhos. E isso é uma merda.
Decidir não fácil. Fazer escolhas...
Mas quando não há escolhas é fácil. Fluir. Apenas fluir...

Na folha a palavra chuva. Título e texto. Condensação máxima da história de uma vida. Chuva.

Receber a água é doloroso para os velhos. Gelada. Forte. Poder.
Escorrer para dentro e além de qualquer corpo físico. Percorrer as distâncias possíveis, e depois elevar-se em vapor. Vaporizar-se.

Deitado no chão ele ainda pareceu ouvir gritos de menino que num passado além do real gritava e dançava em uma chuva anterior...
Sorriu ao perceber que a criança era ele.




terça-feira, 25 de novembro de 2014

Rodar

Caminhar é bom. Rodar é diferente. Nem tão rápido. Medida certa, tanto lenta quanto no furor do vento. O movimento.
É do coração... e das pernas que cansam numa alegria satisfeita. Simetria com chão, estrada e sombra. A sombra segue sempre e o olho à sombra. Segue também. E é o tempo da roda. Movida pela vontade. Músculo e paisagem. Pois o que se vê também é a bicicleta, e o passeio, e a passagem e o movimento todo. E o vento. E o sol.
O rosto é visto e a voz ouvida. Do outro que no contrário movimento faz que fica e continua em outro ritmo.  Os carros não contam. Frios e limpos. Rápidos e cheirando a gasolina. Ovos de lata que chocam as vaidades de seus motoristas. Que nada vêem. Embevecidos que estão por seus próprios reflexos que interpretam importâncias para pequenos espelhos. Os carros não contam.
Contam as árvores todas e a grama que nasce. E a roda que na velocidade exata percebe um verde que se singulariza de outros tantos verdes que já não são os mesmos. Nem os sorrisos. Diferentes todos. E as caras fechadas. Todas diferentes. E belas. A visão libertada de janelas. Olhos que vêem, mesmo no precipitar das duas finas rodas, rugas e vidas que se enredam, se enroscam...
Há também o som. Ou o fone e a escolha sonora. Música para rodar. Música para se perder para além do asfalto. Fugir do asfalto. No chão e no buraco. Deslizar. Fluido. Parar para atravessar a tartaruga, vislumbrar o sofá antigo e vermelho jogado inconseqüentemente no pequeno riacho, que serve de assento para todos os fantasmas e criaturas do campo. Se o alcançasse, também descansaria alguns momentos ali. Mas, agora, é templo sagrado de mistérios e ninho. De pássaros ou cobras. Somos todos. Um pouco de cada. Cobras e pássaros. Voamos e rastejamos. Então rodar. Mesmo que o braço canse e a perna chore. O mundo está esperando. Mesmo o pequeno espaço que conseguimos alcançar. A quantidade de terra que conseguimos atravessar. A ladeira que nos ameaça e se insinua. E o pneu que murcha. E as costas que cansam.

É o espaço e o tempo outro. Longe ficam o resto todo. Prisões e apreensões sociais, vaidades e obrigações, deveres aparências. Só a sombra aprendendo a ser nada. A bicicleta e o homem. Metamorfose de carne e metal na construção interessante de um nada necessário. Deserto. Repleto de tantas coisas, mas sempre vazio. Aberto para todos os caminhos impossíveis.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Dessas coisinhas de amor



Ao levantar, noite terrível. Insônia. Pesadelo. Suador também. Riu de si mesmo. Da ironia e da desgraça também.  Dizem que rir de si mesmo é como terapia, nos faz entender bem melhor o que somos... ou o que não somos (leia-se aqui um certo fatalismo e sarcasmo).
Não. Não se preocupem, esse texto não vai ser recheado de  disritmias cardíacas nem lágrimas dramáticas. Vivemos em um mundo onde se engole tudo, e ele. O mundo. Nos engole. Então não haverá drama. Haverá um certo humor trágico. Acho que fica bem um certo humor trágico. É...
Pois bem. O nome dele é Eu poético. Entenderam a jogada? Não?  Essa eu não vou explicar...
Levantou então e no banho, enquanto se preparava para a gravata o carro e a vida de sempre. Estancou. Merda. Merda!!
Estava encrencado. Entrara na sua vida algo indesejado. Sem querer, sem perceber... ou já tinha percebido? Claro que já... mas o imediatismo da coisa é mais interessante, mais impactante...
Ele. O cara mais chato do mundo. Ele, justamente ele, um homem de meia idade se viu vítima daquilo. Mas... o que é uma meia idade?  Qual é a idade toda? Voltando para o drama então. Como ele, um homem já endurecido pelo tempo e pelas mazelas da vida conseguira permitir tamanha bobagem?
O amor. Mas que merda!!! Pensava. Era uma merda. E que não viessem com frases de efeito romântico e cheias de frescura. O amor era uma merda! Era sim.
Chegava sem ser convidado, indivíduo folgado como o capitão Rodrigo, mas o Rodrigo interpretado pelo Tarcísio, o Lacerda era sofrível... (perceberam a tática de dispersão?) também não vou explicar...
Pois é. Chegava essa coisa. Cruel. Trazendo junto, grudado na pele coisinhas baixas e medíocres como o ciúmes, e coisas muito grandes como a dor. Dor singular. Não qualquer dor, mas aquela que vocês bem sabem, ou em  breve saberão. E tenho pena de vocês.
E por que digo que o amor é uma merda? Porque ele menospreza nosso cérebro. Gastamos tempo e dinheiro "treinando" o desgraçado do cérebro para esse enfrentamento. Anos e anos. Ele mais do que todos. O Eu Poético era um alucinado por esse tipo de treinamento. Livros e mais livros. Horas e horas lendo e relendo. Se preparando para o grande confronto. Seguro. Firme. Pronto. E quando vê. Não vê mais nada. Só o outro lado e aquela dor maldita no peito.  Pra puta que o pariu com essas coisinhas de amor. Já não tinha idade. Queria que o coração entendesse. O Cérebro insistia. O corpo todo preparava seminários para que o maldito órgão entendesse. Mas nada. O coração é a parte mais burra do corpo humano. Criatura imbecil. Insistente, eternamente juvenil. Infantil. O corpo definha se enruga, e ele ali, débil mental, pulsando e pulsando como um cachorrinho que balança o rabo para o dono. Patético, deprimente.
O álcool era bom para o amor. Afogava. Todo ele. Mas não matava. Só anestesiava o animal.
E fazer o quê?
Óbvio. Era óbvio. Essa coisa de amor só exige uma coisa do corpo e da alma. O  sofrimento. A dor. Não há amor sem dor. Muita dor sempre...
E é por isso que ele é uma merda. Claro que é.

No espelho seu olhos de ver muitos mundos o observavam. E tripudiavam dele. A carne que envolve o amor sempre é mais nova, mais bela, mais viçosa... e outras carnes e corpos estão dispostos a esses encontros. O amor é infantil, e os discursos prováveis desse amor são também juvenis, e ele. O Eu poético. Tinha o coração patético. O discurso afiado e cruel, já não estava mais lá. Onde se brincava de amar. Era um monstro. Situado entre ideais e conceitos, teses e análises... estava longe, já não estava mais lá. Por que aquela merda de sentimento insistia em açoitar sua costas?

Açoitar costas já é meio dramático demais...tinha prometido não cair em lugares comuns. Mas quando se fala em amor, o tombo nos mesmos buracos é quase certo.
Pois bem. Enquanto amarrava a gravata. Nó desesperado de enforcamento. Pensava. Não podia estar acontecendo. Não era verdade. Puta que pariu. Não era verdade!

Bateu a porta de casa e entrou no carro. A estrada. Um aperto no peito. Não podia ser dramático. Não queria ser dramático. Não seria.

Mas no fundo... bem lá no fundo. Longe dos diplomas e livros... existia um homem. Pequeno e frágil. Louco pra chorar.

E isso era uma merda!!!!



domingo, 10 de agosto de 2014

(As viagens de Ronísio) SOBRE AMIGOS




 Um amigo. Dois. Muitos. É difícil. Falar sobre amizade mexe com sentimentos profundos. Coisas de fazer chorar. Lembranças. Coisas de fazer pensar. No profundo das coisas. Das ações que nos fazem. Somos o que fazemos. E nunca merecemos todos os amigos que temos. É muito. Para um corpo só. Para um coração só.
Os amigos são os sorrisos. Confortadores. Debochados. Irônicos. Sorrisos-potência que energizam nossa carne, nosso organismo. Sorrisos que têm o poder de fazer brilhar nossos olhos. De chorar e rir. Os olhos nossos.
Encontra-los não é tarefa fácil. Porque eles não são de esse encontrar. Não estão escondidos, prontos para serem percebidos. Eles são de outra natureza. Amigos nascem. Pelo olho. Pela voz. Pelo prazer de estar junto. E isso não depende de tempo e espaço. Depende de alguma coisa muito anterior. Como se no início de tudo um corpo fosse explodido. Galáxia em expansão. E quando cada pedaço desse antigo corpo se aproxima se sente na própria carne. Eis a amizade.
Estes dias fui pego por uma destas coisas de amigos. De amizades. Confesso que sou emotivo e chorão... no escuro dos meus livros e de minhas letras. Na rua minha cara é firme. Turrão. Cheio de manias, às vezes até meio grosseiro. “Quase um ogro” como alguns amigos brincam.
Me levaram de surpresa. Todos eles. Para uma viagem. De carinho e emoção. Minha imagem com eles. Minha lembrança com eles. E isso é muito grande. É muito importante para energizar qualquer coração. Potencializar a alma da gente.
Mesmo não estando. Lá estava eu. Com todos eles. Ronísio. Era eu. Mas não era. Com eles, junto com os meus amigos estava o que em mim era bom. Pois sabemos que os amigos servem para isso. Para fazerem brotar de nós tudo o que é bom. É por isso que precisamos deles. Para sermos melhor. Para vivermos melhor. O amigo é como energia. Como o alimento. Nos faz viver de forma diferente e nos transforma. E nos comove. Muito.
Ser lembrado pelos amigos assume uma importância vital para estas relações sociais. Sentimos como se fôssemos além do que somos. Melhores do que somos. Acreditamos muito mais em nós mesmos. E inclusive esquecemos, um pouco, o quanto somos humanos, frágeis, mesquinhos, maus, egocêntricos e tudo o que também habita o corpo de um ser humano.
Ter amigos é apaziguar estes outros demônios que nos habitam e sorrir para a vida. Ver o nome da gente em um guardanapo de papel em uma pizza nos comove até as lágrimas. Mesmo que elas não saiam. A gente tenta sempre segurar. Ser forte. E até nisso os amigos nos ajudam. Nos ensinam que ser forte também é chorar.
E confesso a todos vocês que derramei algumas. Lágrimas escondidas. Tenho que manter a minha “fama de mau”.
Queria dizer muitas outras coisas.  Mas talvez o silêncio seja muito mais efetivo do que minhas palavras.

Aos amigos meu carinho. Aos amigos minha gratidão. E meu sorriso torto e engraçado...


segunda-feira, 14 de julho de 2014

PAÍS DO QUÊ MESMO?



Havia me decidido que não ia escrever mais. Porém, estou aqui de novo... Não resisti a esse período que estão chamando de Pós-Copa do Brasil; Dia desses tive mais uma daquelas discussões saudáveis das quais participo regularmente... Não seria melhor se “nosso” país DEIXASSE DE SER o País do Futebol?  E passássemos a ser, com o tempo, o país da Educação, por exemplo? Que nos orgulhássemos de ser brasileiros porque temos, quem sabe.. A melhor qualidade de vida do planeta? O melhor Sistema Público de Saúde?  Pois de que adianta ser o país do futebol? Para só meia dúzia ter sorte na vida?  Para uns poucos jogadores ganharem milhões e outros poucos empresários mais ainda?  De que serve a fama, se a maioria dos meninos que correm atrás de uma bola, não chegará a lugar algum; pois a despeito de seus esforços; dependem  de uns, que não tem escrúpulo nenhum?  Copa do Brasil, feita por engravatados europeus, com jogadores de times europeus, para europeus e brasileiros com salários europeus assistirem ao olho da cara...  Patrocínios exageradamente caros e investimentos inexistentes são, no mínimo, contrastantes. Portanto, quem sabe, trocamos a alcunha de “País do Futebol” por “País da Cultura”;  “País da Não-Violência”; “País Exemplo de Solidariedade”; “País do Empregado Bem Remunerado”. O “País Mais Justo do mundo”!  “O País Mais Honesto”! “ O que melhor trata seus aposentados”...  É, eu sei. Estou “viajando” como sempre... Queria um povo mais culto; uns políticos menos sujos; umas leis melhores; justiça de verdade; nosso sistema de saúde é desumano. A desigualdade social ainda é enorme. A insegurança é geral. Vamos melhorar nas urnas, diz o otimista; Não tem o que fazer, diz o pessimista...  Lutar pelo que é meu por direito! É o que aprendi! A lutar. A não me calar! Bóra protestar novamente? Sem vandalismo burro, por favor. Sem violência. Só protesto!  As eleições estão logo aí, os lobos voltaram. Não sejamos ovelhas. No mínimo cães. Brabos. Ou sigamos com essa palhaçada e o problema será de nossos filhos?  Já sei! “O País Onde Melhor Se Escolhe Os Representantes Políticos”? Não seria uma boa? Então eu voto nulo!    Vai entender...   rs

terça-feira, 1 de julho de 2014

minha mão





por Ronie Von Martins

Minha mão

Eis minha mão e a tinta.
Antes o muro, a parede e o verde palma da impressão.
Com todas, era mais uma. Mão e força e cor.
Aqui, sozinha enquadrada é só minha.
Mão.
Um não que é meu.
Minha impressão. Minha pressão.
Única mão.
De tantas outras juntas.
Sozinha lutas. Pois é minha.
A luta.
E a palma dessa mão é busca
em linhas que por mim cruzam.
Minha mão.
Em verde parede e cor.
Minha mão em discurso turvo.
Grafia da minha alma.

na fúria da minha  palma!

quarta-feira, 14 de maio de 2014

SOB PALAVRAS



O nome era Inácio. Da Silva Romão e Filho. O nome. Todo. E tudo era o nome. Respeito e conhecimento. Dos outros todos. Do povo. Pois era mecânico. Das bicicletas todas das cercanias.  Duas rodas era com ele. Sabia tudo. Tudo dos procedimentos de vida e morte das bicicletas. De todas. Conhecia pelo barulho, pela cor, pela forma, pelo som da buzina ou sino. Era o conhecedor das bicicletas. Seu Nácio das bicicletas. O famoso e bem quisto cidadão do bairro das folhas baixas das árvores poucas da rua sem asfalto ou pedra. Seu Nácio das bicicletas da Rua do Buraco.
Crente em Deus. Da igreja e do padre. Mesmo que cada coisa fosse cada coisa. Pra ele tudo era uma coisa só. Uma só coisa tudo. Tinha esse problema. Simplicidade em demasia. Ingenuidade em doses cavalares. Mas era um homem bom.
Mulher e dois filhos. Olga, Isildinho e Isaurino. A família. Casa razoável. Na esquina. Casa em esquina era mais considerada. “Moro na esquina, bem ali... o dedo apontando... na esquina.” Lugar de respeito e de poder. Os esqueletos das bicicletas atirados ou pendurados pelas paredes da casa. Pneus e aros por todo o lado. Borracha. Cheiro de pneu, cheiro de borracha.
Dona Olga era trabalhadora. Casa, roupa, comida, merda do cachorrinho no pátio, comidinha para o canário que nunca cantou nada. Nunca cantava na gaiola. O rádio era maior, imenso. O som também. E afogava e angustiava o bichinho. Recusara a cantar. Nem amarelo era mais. Cinza. E Olga. Sentada. Seu horário. Dela. Único. Morria no sofá. No horário das palavras. Ditas pelos que podiam dizer. Palavras livres. Livres de qualquer responsabilidade. Palavras faladas com o dedo. Em riste. Apontando e julgando.  Ela gostava. Dona Olga. Isildinho também. Daquele horário. Era o momento de “aprender” as coisas. “Viu só? Falava Dona Olga, agarrando forte o ombro de Isildinho. “Viu só, viu só... é isso que eu acho. É isso que eu acho. Que mulher inteligente!”
A televisão era o rosto. Sério e respeitável da verdade. E falava de justiça. De força. De como a comunidade devia reagir. Aos bandidos. “Essa cambada.” Prender, bater, amarrar com arame. Mereciam. Eram os maus. A comunidade era do bem. Os bons. Era a guerra. O povo devia estar armado. Pra resistir aos bandidos. Pra matar os bandidos.
Inácio era calmo. Como as bicicletas. Só se moviam se houvesse uma força atuando nos pedais. Outra força. Um poder exterior. E foi assim. E era assim. Enterrado nos pedais e nas correntes. Correias. Não havia bandidos, não havia o resto. Só bicicletas, selins, quadros, guidões, marchas. Tinta, óleo. Borracha. Muita borracha. Não havia além disso. Da bicicleta e do que ela lhe dava. Seu próprio nome, alcunha. Poder.
Isaurino era grande. De futebol jogador e apreciador. Gritava, xingava. Tinha posição, time, torcida. Organizado. Chorava segurando o símbolo do time, seu símbolo de força, de identidade, de pertencimento, de importância. Era quem era pelo fato de ser torcedor de seu time. Sua igreja. Seu discurso. Saurinho como os amigos chamavam, gritavam. Gordo e suado. Sorridente. Dente branco. Olho branco brilhante. Sempre feliz. E bêbado. Seu Nácio não bebia. Água sim. Apenas. Saurinho todas. O álcool. E já não sorria. Ameaçava e brigava.
Foi assim. Que todos. A família. Matou. Trucidou.
Ouviram a voz da televisão. Isildinho na Internet confirmou o inconfimável. E mataram. Já não eram a família. Eram as feras. Eles e os outros. Tijolo e pedra. E palavras mais pesadas. Agudas. E sangue e desespero. Dona Olga de pedra na mão. Saurinho gritando e arrastando o corpo com fúria e raiva e álcool, Isaurinho saltando e ofendendo. Seu Inácio cruzando por cima. Com rodas. Bicicleta. Sua arma, comida e vida.
A mulher não era. Outra. Quando a polícia chegou, dona Olga ainda batia, clava de madeira, grunhia e chamava de puta, o sangue na arma, no cadáver e no olho.
Enquanto isso na casa de um vizinho. A tv ligada. E uma voz feminina séria e respeitosa falava “ainda” em justiça. E em mãos.
E enquanto era levado pela polícia seu Nácio das bicicletas não entendia nada. Nem dona Olga, muito menos Isildinho... Isaurinho vomitava.