Escrever?

"Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga" (Gilles Deleuze)
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segunda-feira, 18 de maio de 2015

RODAR


      

Caminhar é bom. Rodar é diferente. Nem tão rápido. Medida certa, tanto lenta quanto no furor do vento. O movimento.
É do coração... e das pernas que cansam numa alegria satisfeita. Simetria com chão, estrada e sombra. A sombra segue sempre e o olho à sombra. Segue também. E é o tempo da roda. Movida pela vontade. Músculo e paisagem. Pois o que se vê também é a bicicleta, e o passeio, e a passagem e o movimento todo. E o vento. E o sol.
O rosto é visto e a voz ouvida. Do outro que no contrário movimento faz que fica e continua em outro ritmo.  Os carros não contam. Frios e limpos. Rápidos e cheirando a gasolina. Ovos de lata que chocam as vaidades de seus motoristas. Que nada vêem. Embevecidos que estão por seus próprios reflexos que interpretam importâncias para pequenos espelhos. Os carros não contam.
Contam as árvores todas e a grama que nasce. E a roda que na velocidade exata percebe um verde que se singulariza de outros tantos verdes que já não são os mesmos. Nem os sorrisos. Diferentes todos. E as caras fechadas. Todas diferentes. E belas. A visão libertada de janelas. Olhos que vêem, mesmo no precipitar das duas finas rodas, rugas e vidas que se enredam, se enroscam...
Há também o som. Ou o fone e a escolha sonora. Música para rodar. Música para se perder para além do asfalto. Fugir do asfalto. No chão e no buraco. Deslizar. Fluido. Parar para atravessar a tartaruga, vislumbrar o sofá antigo e vermelho jogado inconseqüentemente no pequeno riacho, que serve de assento para todos os fantasmas e criaturas do campo. Se o alcançasse, também descansaria alguns momentos ali. Mas, agora, é templo sagrado de mistérios e ninho. De pássaros ou cobras. Somos todos. Um pouco de cada. Cobras e pássaros. Voamos e rastejamos. Então rodar. Mesmo que o braço canse e a perna chore. O mundo está esperando. Mesmo o pequeno espaço que conseguimos alcançar. A quantidade de terra que conseguimos atravessar. A ladeira que nos ameaça e se insinua. E o pneu que murcha. E as costas que cansam.

É o espaço e o tempo outro. Longe ficam o resto todo. Prisões e apreensões sociais, vaidades e obrigações, deveres aparências. Só a sombra aprendendo a ser nada. A bicicleta e o homem. Metamorfose de carne e metal na construção interessante de um nada necessário. Deserto. Repleto de tantas coisas, mas sempre vazio. Aberto para todos os caminhos impossíveis.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O velho que lia





Sábado. Na janela o sol não se intimidava com a tentativa de impenetrabilidade. Pelas frinchas dava jeito de atingir-lhe o corpo.
Na cama. O corpo permanecia. Largados os braços. Pernas também. Cobertas no desalinho do pesadelo. O escuro teimava em permanecer.
O despertador já havia gritado. O galo também. O mundo já havia gritado. E ele estava atrasado.
Atrasado para o grito do corpo.
No chão. O livro. A leitura que fizera à noite. Lia para espantar seus demônios. Armadilhas infalíveis para aprisionar criaturas das trevas. Abria o livro nas madrugadas e esperava que todos os seus medos se manifestassem. E os consumia em forma de texto. Palavra. Era um devorador de demônios. O maior de todos eles.
Aprisionava em seus livros todas as suas angústias.
E em sua pequena biblioteca, às vezes ouvia os sussurros e infâmias que os prisioneiros lhe endereçavam.
O mundo era muito estranho.
Velho. Tão velho quanto a quantidade de rugas que rizomaticamete envolviam toda a sua pele.
Já em pé. Sorvia o chimarrão tão quente e amargo. Apreciava a pequena bruma que se esvaia do calor da água e da erva da cuia. O cheiro... Solidão tem cheiro?
Caminhou até o quarto. Apanhou o livro do chão e cuidadosamente o colocou na estante.
A neta um dia lhe perguntou porque vivia sozinho “quem disse que estou só?” respondeu sorrindo. O filho, homem de certa obesidade aproximou-se tentando argumentar sobre os perigos de morar sozinho, questões de idade e limitações do corpo, e ele sorria. Quando o filho afastou-se. O velho pegou a menina no colo e contou-lhe as histórias de seus livros. Dos seus medos e angústias aprisionados nas linhas dos textos... os olhos brilhavam com a intensidade da admiração, surpresa e medo. “Eles estão presos?”
O sorriso do velho se abria. “Todos eles.”
“Mas e se eles fugirem?” “Às vezes acontece. Mas toda a noite eu os caço novamente e os apanho. E os guardo ali.” O dedo apontando para as estantes. O coração da menina pulsava. Os olhos esbugalhados faiscavam de excitação e temor.
Então o tempo e a morte vieram, e as flores, e as rezas, e as lágrimas e as dores.
E nestes interstícios da vida, quando a memória parece insistir em abrir uma brecha no muro da realidade e do presente, ela, a menina que agora já não era lembrava do avô.

E toda vez pela manhã quando ia observar o pequeno Diego. O filho. Levantava do chão o espesso livro de contos de fadas. “Cuidado mãe.” Ainda sonolento ele dizia. “Eles podem fugir.”

domingo, 11 de janeiro de 2015

CHUVA




Seria interessante. Escorrer. Correr silencioso. Infiltrando-se em toda matéria, levando outras...
Ser água. Em tudo estar.
Menos nesta folha. Neste texto. Longe do meu espaço. Quadrado. Espaço que delimita meu corpo físico, clínico. Meu texto. Contexto.
A janela chora minha angústia. E dissolve o vidro em memória aquosa. Lembrança. A água entrando... conectando em sinapses  uma existência em que o fragmento é a verdade.
A palavra não anda. O texto não caminha em estrada definida... se perde. Perde-se no sem palavras da chuva. Nuvem.
Escura em devir permanente. Raios? Trovões?
A secura desta peça me sufoca. A tela do computador dociliza a alma. A raiva.
O homem precisa de raiva. Precisa de indignação. Assim como o mundo precisa da tempestade. Da chuva...
Nem chover consigo.  A água me é escassa; no corpo e na alma. Velho. A idade seca o homem. Drena a vida. A água...
Ainda lembro... lembro das lágrimas juvenis. Do rosto encharcado e das dores advindas de minhas desilusões amorosas. Água. Saudade da água.
Hoje tenho o texto. a palavra e a memória. Poço profundo de onde bebo alguma vida. Escassa. Alguns breves sorrisos.
A solidão não irrita ninguém. Pelo menos não a mim. O que mi irrita é a ausência de vida. Essa escassez da água no corpo. Esse esvair de intenções. Sonhos.
Meu texto procura a liquidez da chuva... fluidez.
A terra está encharcada. A água faz possas. Liga as possas e faz pequenos lagos que escorrem. Fluem. Luzes no céu. Barulho. Estrondo de vida.
Minha folha está morta. Branca e ousada, me desafia. Me julga em sua possibilidade de conter o reflexo da vida em letras e idéias. E nua e alva e crua zomba da decrepitude da minha criatividade. Está frio?
Sempre está frio para os velhos. E isso é uma merda.
Decidir não fácil. Fazer escolhas...
Mas quando não há escolhas é fácil. Fluir. Apenas fluir...

Na folha a palavra chuva. Título e texto. Condensação máxima da história de uma vida. Chuva.

Receber a água é doloroso para os velhos. Gelada. Forte. Poder.
Escorrer para dentro e além de qualquer corpo físico. Percorrer as distâncias possíveis, e depois elevar-se em vapor. Vaporizar-se.

Deitado no chão ele ainda pareceu ouvir gritos de menino que num passado além do real gritava e dançava em uma chuva anterior...
Sorriu ao perceber que a criança era ele.




terça-feira, 25 de novembro de 2014

Rodar

Caminhar é bom. Rodar é diferente. Nem tão rápido. Medida certa, tanto lenta quanto no furor do vento. O movimento.
É do coração... e das pernas que cansam numa alegria satisfeita. Simetria com chão, estrada e sombra. A sombra segue sempre e o olho à sombra. Segue também. E é o tempo da roda. Movida pela vontade. Músculo e paisagem. Pois o que se vê também é a bicicleta, e o passeio, e a passagem e o movimento todo. E o vento. E o sol.
O rosto é visto e a voz ouvida. Do outro que no contrário movimento faz que fica e continua em outro ritmo.  Os carros não contam. Frios e limpos. Rápidos e cheirando a gasolina. Ovos de lata que chocam as vaidades de seus motoristas. Que nada vêem. Embevecidos que estão por seus próprios reflexos que interpretam importâncias para pequenos espelhos. Os carros não contam.
Contam as árvores todas e a grama que nasce. E a roda que na velocidade exata percebe um verde que se singulariza de outros tantos verdes que já não são os mesmos. Nem os sorrisos. Diferentes todos. E as caras fechadas. Todas diferentes. E belas. A visão libertada de janelas. Olhos que vêem, mesmo no precipitar das duas finas rodas, rugas e vidas que se enredam, se enroscam...
Há também o som. Ou o fone e a escolha sonora. Música para rodar. Música para se perder para além do asfalto. Fugir do asfalto. No chão e no buraco. Deslizar. Fluido. Parar para atravessar a tartaruga, vislumbrar o sofá antigo e vermelho jogado inconseqüentemente no pequeno riacho, que serve de assento para todos os fantasmas e criaturas do campo. Se o alcançasse, também descansaria alguns momentos ali. Mas, agora, é templo sagrado de mistérios e ninho. De pássaros ou cobras. Somos todos. Um pouco de cada. Cobras e pássaros. Voamos e rastejamos. Então rodar. Mesmo que o braço canse e a perna chore. O mundo está esperando. Mesmo o pequeno espaço que conseguimos alcançar. A quantidade de terra que conseguimos atravessar. A ladeira que nos ameaça e se insinua. E o pneu que murcha. E as costas que cansam.

É o espaço e o tempo outro. Longe ficam o resto todo. Prisões e apreensões sociais, vaidades e obrigações, deveres aparências. Só a sombra aprendendo a ser nada. A bicicleta e o homem. Metamorfose de carne e metal na construção interessante de um nada necessário. Deserto. Repleto de tantas coisas, mas sempre vazio. Aberto para todos os caminhos impossíveis.

domingo, 10 de agosto de 2014

(As viagens de Ronísio) SOBRE AMIGOS




 Um amigo. Dois. Muitos. É difícil. Falar sobre amizade mexe com sentimentos profundos. Coisas de fazer chorar. Lembranças. Coisas de fazer pensar. No profundo das coisas. Das ações que nos fazem. Somos o que fazemos. E nunca merecemos todos os amigos que temos. É muito. Para um corpo só. Para um coração só.
Os amigos são os sorrisos. Confortadores. Debochados. Irônicos. Sorrisos-potência que energizam nossa carne, nosso organismo. Sorrisos que têm o poder de fazer brilhar nossos olhos. De chorar e rir. Os olhos nossos.
Encontra-los não é tarefa fácil. Porque eles não são de esse encontrar. Não estão escondidos, prontos para serem percebidos. Eles são de outra natureza. Amigos nascem. Pelo olho. Pela voz. Pelo prazer de estar junto. E isso não depende de tempo e espaço. Depende de alguma coisa muito anterior. Como se no início de tudo um corpo fosse explodido. Galáxia em expansão. E quando cada pedaço desse antigo corpo se aproxima se sente na própria carne. Eis a amizade.
Estes dias fui pego por uma destas coisas de amigos. De amizades. Confesso que sou emotivo e chorão... no escuro dos meus livros e de minhas letras. Na rua minha cara é firme. Turrão. Cheio de manias, às vezes até meio grosseiro. “Quase um ogro” como alguns amigos brincam.
Me levaram de surpresa. Todos eles. Para uma viagem. De carinho e emoção. Minha imagem com eles. Minha lembrança com eles. E isso é muito grande. É muito importante para energizar qualquer coração. Potencializar a alma da gente.
Mesmo não estando. Lá estava eu. Com todos eles. Ronísio. Era eu. Mas não era. Com eles, junto com os meus amigos estava o que em mim era bom. Pois sabemos que os amigos servem para isso. Para fazerem brotar de nós tudo o que é bom. É por isso que precisamos deles. Para sermos melhor. Para vivermos melhor. O amigo é como energia. Como o alimento. Nos faz viver de forma diferente e nos transforma. E nos comove. Muito.
Ser lembrado pelos amigos assume uma importância vital para estas relações sociais. Sentimos como se fôssemos além do que somos. Melhores do que somos. Acreditamos muito mais em nós mesmos. E inclusive esquecemos, um pouco, o quanto somos humanos, frágeis, mesquinhos, maus, egocêntricos e tudo o que também habita o corpo de um ser humano.
Ter amigos é apaziguar estes outros demônios que nos habitam e sorrir para a vida. Ver o nome da gente em um guardanapo de papel em uma pizza nos comove até as lágrimas. Mesmo que elas não saiam. A gente tenta sempre segurar. Ser forte. E até nisso os amigos nos ajudam. Nos ensinam que ser forte também é chorar.
E confesso a todos vocês que derramei algumas. Lágrimas escondidas. Tenho que manter a minha “fama de mau”.
Queria dizer muitas outras coisas.  Mas talvez o silêncio seja muito mais efetivo do que minhas palavras.

Aos amigos meu carinho. Aos amigos minha gratidão. E meu sorriso torto e engraçado...


quarta-feira, 14 de maio de 2014

SOB PALAVRAS



O nome era Inácio. Da Silva Romão e Filho. O nome. Todo. E tudo era o nome. Respeito e conhecimento. Dos outros todos. Do povo. Pois era mecânico. Das bicicletas todas das cercanias.  Duas rodas era com ele. Sabia tudo. Tudo dos procedimentos de vida e morte das bicicletas. De todas. Conhecia pelo barulho, pela cor, pela forma, pelo som da buzina ou sino. Era o conhecedor das bicicletas. Seu Nácio das bicicletas. O famoso e bem quisto cidadão do bairro das folhas baixas das árvores poucas da rua sem asfalto ou pedra. Seu Nácio das bicicletas da Rua do Buraco.
Crente em Deus. Da igreja e do padre. Mesmo que cada coisa fosse cada coisa. Pra ele tudo era uma coisa só. Uma só coisa tudo. Tinha esse problema. Simplicidade em demasia. Ingenuidade em doses cavalares. Mas era um homem bom.
Mulher e dois filhos. Olga, Isildinho e Isaurino. A família. Casa razoável. Na esquina. Casa em esquina era mais considerada. “Moro na esquina, bem ali... o dedo apontando... na esquina.” Lugar de respeito e de poder. Os esqueletos das bicicletas atirados ou pendurados pelas paredes da casa. Pneus e aros por todo o lado. Borracha. Cheiro de pneu, cheiro de borracha.
Dona Olga era trabalhadora. Casa, roupa, comida, merda do cachorrinho no pátio, comidinha para o canário que nunca cantou nada. Nunca cantava na gaiola. O rádio era maior, imenso. O som também. E afogava e angustiava o bichinho. Recusara a cantar. Nem amarelo era mais. Cinza. E Olga. Sentada. Seu horário. Dela. Único. Morria no sofá. No horário das palavras. Ditas pelos que podiam dizer. Palavras livres. Livres de qualquer responsabilidade. Palavras faladas com o dedo. Em riste. Apontando e julgando.  Ela gostava. Dona Olga. Isildinho também. Daquele horário. Era o momento de “aprender” as coisas. “Viu só? Falava Dona Olga, agarrando forte o ombro de Isildinho. “Viu só, viu só... é isso que eu acho. É isso que eu acho. Que mulher inteligente!”
A televisão era o rosto. Sério e respeitável da verdade. E falava de justiça. De força. De como a comunidade devia reagir. Aos bandidos. “Essa cambada.” Prender, bater, amarrar com arame. Mereciam. Eram os maus. A comunidade era do bem. Os bons. Era a guerra. O povo devia estar armado. Pra resistir aos bandidos. Pra matar os bandidos.
Inácio era calmo. Como as bicicletas. Só se moviam se houvesse uma força atuando nos pedais. Outra força. Um poder exterior. E foi assim. E era assim. Enterrado nos pedais e nas correntes. Correias. Não havia bandidos, não havia o resto. Só bicicletas, selins, quadros, guidões, marchas. Tinta, óleo. Borracha. Muita borracha. Não havia além disso. Da bicicleta e do que ela lhe dava. Seu próprio nome, alcunha. Poder.
Isaurino era grande. De futebol jogador e apreciador. Gritava, xingava. Tinha posição, time, torcida. Organizado. Chorava segurando o símbolo do time, seu símbolo de força, de identidade, de pertencimento, de importância. Era quem era pelo fato de ser torcedor de seu time. Sua igreja. Seu discurso. Saurinho como os amigos chamavam, gritavam. Gordo e suado. Sorridente. Dente branco. Olho branco brilhante. Sempre feliz. E bêbado. Seu Nácio não bebia. Água sim. Apenas. Saurinho todas. O álcool. E já não sorria. Ameaçava e brigava.
Foi assim. Que todos. A família. Matou. Trucidou.
Ouviram a voz da televisão. Isildinho na Internet confirmou o inconfimável. E mataram. Já não eram a família. Eram as feras. Eles e os outros. Tijolo e pedra. E palavras mais pesadas. Agudas. E sangue e desespero. Dona Olga de pedra na mão. Saurinho gritando e arrastando o corpo com fúria e raiva e álcool, Isaurinho saltando e ofendendo. Seu Inácio cruzando por cima. Com rodas. Bicicleta. Sua arma, comida e vida.
A mulher não era. Outra. Quando a polícia chegou, dona Olga ainda batia, clava de madeira, grunhia e chamava de puta, o sangue na arma, no cadáver e no olho.
Enquanto isso na casa de um vizinho. A tv ligada. E uma voz feminina séria e respeitosa falava “ainda” em justiça. E em mãos.
E enquanto era levado pela polícia seu Nácio das bicicletas não entendia nada. Nem dona Olga, muito menos Isildinho... Isaurinho vomitava.




segunda-feira, 21 de abril de 2014

Guri no buraco

GURI NO BURACO
Ronie Von Rosa Martins




Era um buraco. Um belo e escuro buraco. Sem medo enfiou a mão que se perdeu no outro mundo. Um belo buraco. Pensou.
A possibilidade estava dada. O buraco o olhava. Olho de escuro brilhante e sedutor. Profundidades abissais, aventuras inenarráveis. Os lados. Observou. O vazio da vida real. Nada. Só o mesmo. De sempre. Coisas e mais coisas. Pessoas e mais pessoas. Coisas de pessoas. Reações de pessoas. Sentimentos de pessoas. Muito chato. Um mundo dominado e resumido pela pessoalidade.
Não havia laranja, nem a cerca do vizinho. Estava só. No campo. Ele e o buraco enorme. Olho que refletia  a intensidade de seu prazer e curiosidade.
China?
Diziam que todo buraco ia dar na China. Sorriu ao pensar em visitar a China, aquele mundo amarelo cheio de gente amarela com aqueles sorrisos enormes cheios de dentes “né?”.
Mas e se não gostasse? E se fossem uns bobalhões e só quisessem comer arroz? Tinha horror de arroz. Só se fosse com batatinha frita, feijão e bife. Mas só arroz? Vai ver que era por isso que eram amarelos. Mas pra ser amarelo deveriam comer milho, e não arroz.
E se fosse um túnel para um outro mundo. Um reino encantado cheio de fadas e gnomos. Todo mundo andando com aquelas calças coladinhas na bunda e de botinhas. Tudo verde. E de bonezinho.
Seria piada para toda a rua. Não, não queria virar gnomo, sem essa de calça apertadinha. Estufou o peito. Era um homem. Tinha sete anos. Ia pegar muito mal para a sua reputação. O que iam dizer lá no jardim. Que era maricas? Teria que brigam com o Paulinho Toca-flauta. Ele tava sempre se arriando neste ou naquele. Ia apanhar. O Toca-flauta era enorme e mau.
Ele é que devia entrar no buraco e ir pra China. Se empanturrar de arroz até estourar. Sorriu ao pensar no menino inchando com a boca cheia de arroz. De pois cada vez que enxergava o Toca-flauta caia na risada. Levara até uns tapas do outro, mas não adiantara nada. Acabou que quando Paulinho avistava o menino, dava um jeito de se esquivar.
O resto da gurizada percebeu as tramóias de escape do Toca-flauta e acabaram trocando o apelido do Paulinho para Paulinho Tô-fora, pois cada fez que encontrava o menino, dava um jeito de sair de fininho.
Mas voltamos ao buraco. Entrou. De cabeça. Escuro. Apertado. O coelho da Alice abanou para ele. Ele sorriu. Lembrava da história. A avó contava. Lia um livro antigo. Cheio de dezenhos. Gostava do coelho. Mas gostava mais do Chapeleiro Maluco. Será que existiam mesmo? A vó contara que a Alice acordou e percebeu que tinha sonhado. Ele sorriu. Ninguém sonha assim tão bem. Nem a Alice. Nem mesmo a Emília. Aquela boneca de pano. E o Visconde. Paraou. Pensou. Até que o Visconde e o Chapeleiro ... será que eram irmãos. Não. Não podiam. Ou podiam?
Mas as pernas não podiam. A cabeça queria entrar além, mais fundo. Invadir a terra, conhecer as entranhas. Mas as pernas presas na superfície não permitiam. Correntes que o mantinham neste mundo de cá. Tentou voltar. A cabeça cheia de terra. O nariz sujo. A roupa imunda. Preso. Preso no buraco. Entre dois mundos. E  agora?
O choro veio. De mansinho, logo se transformando em fúria e pânico. Pernas encenando todo o seu desespero.
Só sentiu quando algo segurou suas pernas e o puxou para fora. Ainda chorando. A mãe o segurou no colo. Sentada na grama. Depois deitados em abraço comovente. Um sorriso que era o mesmo descansava tranqüilo no rosto de mãe e filho.



segunda-feira, 7 de abril de 2014

Gato e rato

Gato e rato
Ronie Von Rosa Martins


O gato perseguia o rato. Sempre. Corrida de obstáculos em que o rato sempre vencia. Buracos, esquinas, saltos, agachamentos. A frustração do felino. O rosto achatado na parede. O martelo insensível na cabeça. A língua em chamas. A risada que não saia. A mãe que chorava. O rato não vencia sempre não. Encolhido ao pé da cama observava o caminhar trôpego do homem. O pai. O poder. No chão. Esmurrada. Surrada. Os soluços da mãe. O olho do homem no seu olho. Do rato. Gato e rato. O que fazer? Enfrentar o gato? Se oferecer à devoração do gato. A trilha sonora. Alegre, rápida. O denso silêncio. Espesso. Na mão do homem a garrafa. Na mão do homem o punho cerrado. A ofensa na boca. Em cuspe e fel. Em raiva milenar. Em ignorância secular. Impunidade atestada. “E você. Vai fazer o quê?” O gato perguntava em deboche de voz. “Não é homem?” e o rato via o homem e achava que não queria ser homem. Ser homem era aquilo? “Não é homem seu rato!” gritava em saliva e cachaça que expelia em boca que mordia e consumia tudo que era bom. Ser rato era melhor que ser homem. Fugir para a toca. Esconder-se do gato. Recusar o homem. Recusar ser homem. A mãe gemia. E o gato chutou-lhe a barriga. A violência era desmistificada. Pura. Cambaleou o gato. Sentou-se na cama. Sem fôlego. Correra muito para alcançar o rato. Os ratos. Eram todos ratos. A culpa era deles. A vida era uma merda porque eles não ajudavam. Não faziam a parte deles. Era tudo com ele. “Eu faço a minha parte... eu faço...” olhava para o corpo da mulher no chão. “Tu... tu não faz a tua...” apontava um dedo que era um gargalo para o menino e gritava: “Nem tu... ratinho... infeliz ratinho... nem tu faz a tua...”
Do que falava o gato. Pensava o garoto.
“São um atraso.” Continuava o pai. “Um atraso pra minha vida.” Levantou-se mas caiu ajoelhado sobre o corpo da mulher. Gritou no ouvido que já não ouvia. “Vaca!” e riu.
A risada assustava muito o menino. Risada cheia de fantasmas seculares, fantasmas que provinham da garrafa que dançava na mão do homem-gato-pai. O ratinho correu. Pela porta. “Vai seu merdinha... vai pro buraco... vai pra toca...” e ria e chorava. E soluçava o gato. O homem. O fantasma.
Agora tentava acordar a mulher. Empurrava o corpo de um lado para o outro. “Acorda sua vaca, não finge... eu sei que estás aí...”  E então parou. A garrafa liberta pela mão tombou primeiro. O sangue da garrafa escorrendo ao lado da mulher. Os olhos esbugalhados. Fora surpreendido pelo rato. Pelo martelo. Seu próprio martelo. Tentou levantar. A embriaguez e o peso da cabeça não permitiram, tombou. Uma. Duas. Três vezes. A mão na cabeça constatava o sangramento. O braço estendido. “Ajuda...” os olhos do ratinho grandes e apavorados. Corpo estático. Tombou.

A criança caminhou até a tv e apertou o botão. Fim.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Parados

PARADOS
RONIE VON MARTINS

Pensar o calor. Em toda a sua vastidão. Quase a ponto de consumirmo-nos no seu bafo, no seu hálito incandescente. Indecente. Pensar enquanto as mãos – suadas – perdem toda a força, a vontade. O suor é água fervente. O suor é o derretimento do espírito. De toda a ação. Parados.
A enorme estrada congestionada de corpos metálicos ferventes. O asfalto negro e pegajoso parece amalgamar-se aos pneus. Tudo uma coisa só. A terra parece engolir os veículos. E o suor. Os corpos desidratando. Rostos cansados, irritados. Nervosos estão todos. Todos presos em seus respectivos carros. Em suas respectivas misérias. Há uma singular trilha sonora. Construída através do número variado deestações de rádio que vomitam suas músicas “da hora”, juntamente com as buzinas e o burburinho das vozes humanas e dos motores. Discurso único. Dialeto resgatado do inferno. Das profundezas do sol.
Passou a mão instintivamente pela calvície. Trouxe-a encharcada de suor. Na bermuda tentou seca-la. Esta também sofria os problemas do calor, e se agarrava ao corpo úmida e apertada de forma irritantemente desconfortável. Pelo retrovisor do carro olhou para seu rosto. As grandes sobrancelhas encharcadas serviam de represa para os rios sudoríferos que se formavam aqui e ali e despencavam...
Pensou no texto que estava escrevendo. O ser humano e suas complexidades. Artigo para o jornal local. Complexidades... a vida era isso. Tinha que resistir à vida. Parado. Sempre estivera parado. Sentado. Escrevendo. Pensando. A mulher era só uma lembrança. Olhos claros e vastos. Sorriso meigo, corpo vigoroso e magro. Bonita sem ser bela. O filho. Pequeno era uma presença só quando ela, a mãe, trazia-o deSão Paulo. Fugiram. Os dois o haviam abandonado. Letras demais. Histórias demais. Vida de menos. Sempre assim. “Amor, amor..?” Ela perguntava quase em lamento. “Sim, eu amo. Amo, amo... te amo... mas não te quero.” O “não te quero” era pronunciado pela primeira vez bem baixinho, quase no tom do ponto final da sentença, depois como forma de afirmação, de exorcismo era gritado, vomitado: “Não te quero! Não te quero mais!”
Eram as letras. As folhas e os livros. Olhou para o número expressivo de livros e papéis no banco de trás do carro. Sorriu. Eram sempre eles. Não permitiam mais ninguém. As palavras eram espectros. Vampiros que sugavam qualquer tentativa de uma vida normal.
E a estrada estava caudalosa. Pelo lado direito, dentro de um Vectra, uma mulher nova, morena, olhos oblíquos, boca pequena parecia aflita. O telefone na mão. Apanhou o dele. Sem sinal. Era isso. No entanto as marcas de aflição que riscavam o rosto da mulher do Vectra eram mais profundas que o simples dissabor de não conseguir falar com alguém. Ela abriu a porta do carro e colocou uma das pernas para fora. Todos os filmes de Hollywood saltaram na memória. Perna digna de muitos comentários.
Na esquerda um Gol vermelho e um rapaz magra e indiferente. Um pote de batatas fritas e uma latinha de Coca. Comia sofregamente, sem tirar os olhos do produto. E cada vez que chupava o canudinho, um barulho esquisito era ouvido. O rapaz não olhava para ninguém. Só para o pote de batatinha.
Boné preto enterrado na cabeça. Espinhas vulcânicas sobressaindo do rosto magro, sobrancelhas ralas e pequenas. Por um momento seus olhares se cruzaram. O rapaz sorriu. Boca amarela. Repleta de batata. Ele virou o rosto. Estômago fraco.
Escritor. “Quero ser escritor.” Era o que dizia quando era jovem. Lia tudo o que lhe cai nas mãos. Escrevia muito. Muito. Achava que era bom. A maioria achava o contrário. Conseguira apenas um emprego de fotógrafo. Fotos de miséria e morte era o que mais sabia fazer. Esporadicamente escrevia um artigo para o jornal. Tinha algumas amizades e o pessoal dava um “mole”.
A mulher saiu por inteiro. E no momento que fazia isso. Todos os olhares masculinos a seguiram. Levantaram-na, incorporaram-se ao seu corpo. Possuíram-na em forma, perfil, figura, silhueta, imagem e mulher. Inteira. Chorosa. Chutou o pneu do carro visivelmente irritada pela situação. Ele podia jurar ter ouvido a palavra “merda”.
As pernas longas e lindas da mulher ainda caminhavam nos seus olhos. Pensou em puxar conversa, ser cavalheiro. E um filete de suor escorregou da sua testa e despencou no seu nariz. E percebeu que estava no inferno. E um calor insuportável tomou-lhe a razão. “Merda.” Saiu e caminhou para a mulher.
O filho era lindo. Sempre queria brincar, conversar. Mas ele não podia. Dedos presos nas teclas do computador e olhos dominados pelas letras. “ Fala com ele Ítalo.” Dizia a mulher. “Fala com o teu filho!” e ele fazia um afago no menino e seguia escrevendo sua obra fantástica.
Foi então que eles o deixaram. “Acabou.” E foram para São Paulo. Ele ficava em Porto Alegre. Parado. Criando um mundo que não era o seu?
A mulher do Vectra olhou-o. Ele não era magro. Grandes bermudas, sandálias de couro. Barriga um pouco proeminente. Totalmente calvo e com grandes sobrancelhas. Suando, suando muito. Antes que ele pudesse abrir a boca para dizer algo, outro homem saltou do garro. Vomitado pela fúria. Lata de cerveja na mão, rosto transfigurado pelo calor e indignação. Gritava obscenidades, fazia gestos, chutava os outros carros, mandava todo o mundo para lugares que não eram agradáveis. Tropeçou e caiu perto do carro do rapaz das batatinhas.
O jovem quase engasgou de tanto rir, cuspindo fragmentos pegajosos do alimento para o ar. O bêbado lenvantou-se. Chutou a porta do carro do rapaz. Afundou a lataria. O rapaz fez outra careta engraçada e deu outra gargalhada, zombando do homem. Este enfurecido, com um safanão, jogou o pacote de batatas no chão. O jovem do carro agora não ria. E a coisa esquentava.
A mulher arregalou os olhos. O pânico estampado na boca que engolia todo o som de seu grito. Atirou-se ao peito dele, abraçando-o com força. Ele forçou-a para o chão. Encolhidos atrás do carro dele assistiam apavorados o rapaz encostar o cano de um enorme revólver na cabeça do homem.
“Valentão, né... valentão...” O garoto provocava, voz esganiçada. Mão firme e ossuda. “Valentão, né...?” “E agora valentão... hein... e agora?”
Sob a mira do revólver, o bêbado encolhia-se todo e gemia. As calças mijadas. O corpo trêmulo, olhos apertados quase sentindo a dor de morrer...
Enquanto as rádios propunham outras trilhas para a ação que se desenrolava, ele ouviu a sua própria voz pedindo calma ao garoto, que ficasse calmo, todo mundo estava nervoso, era melhor ficarem calmos... pro bem de todos... foi interrompido pelo grito do rapaz mandando que calasse a boca. “Cala a boca veado!”, chutou o homem que estava a sua frente e arrancou-lhe a carteira do bolso. O relógio. Bebeu um gole da cerveja. Ainda gritando foi limpando os motoristas mais próximos, carteiras, bolsas, brincos, e tudo que pudesse valer alguma coisa. Chegou perto dele e da mulher. “Levanta bundão” levou-o até o carro. Olhou para o interior. “Só essa merda de livro hein?” arrancou a carteira da mão. “Manda isso pra cá careca” deu uma risada, olhou pra mulher toda encolhida, “Não adianta insistir com a mina não seu trouxa, isso é mulher demais pro teu caminhazinho” apalpou as nádegas da mulher que agarrou-se a ele assustada. Outros homens tentaram sair dos carros para ajudar. Sentimento de herói. Dama indefesa, essas coisas... o cano do revólver olhou fixamente para cada um deles e eles voltaram. Sempre voltavam.
O calor. Todos suavam muito. Todos tremiam muito. O rapaz corria feliz por entre os carros. Rápido, ágil, mas feliz. Ninguém se animou a gritar. Ninguém se animou a reclamar. Estavam todos parados. Rendidos. A mulher começou a chorar. O bêbado levantou-se mais furioso, ia telefonar pra polícia, era amigo do deputado tal, ia dar um jeito, que todo mundo era covarde, que “tu”, e apontava para ele. “Tu é um covarde, deixou o meliante pegar a bunda da dona e não fez nada, Tu é um cov...” e estatelou-se no chão novamente. A mulher o esmurrara violentamente. E como se não bastasse chutou-lhe os testículos. Ele vomitou. E chorou. “Desprezível” foi o que ela disse.
Ela falou sobre o marido. Político. Deputado. Homem violento. Que o traia. Que ele suspeitava. Que tinha que estar em casa antes dele chegar. Que ele era capaz de lhe bater. Que podia perder tudo. Que ele podia acabar com a vida dela. E com a vida do amante. Que não agüentava mais aquela vida. Limpou uma lágrima que se misturava ao suor. Que era infeliz. O decote falava mais alto, tinha um discurso mais eloqüente, e respondia todas as questões...
Escorou-se no carro e ia começar a dizer que era escritor, intelectual, que era muito inteligente e sensível, que apesar de não ser bonito era muito bom de cama e que adoraria fazer com ela o que ela bem quisesse, ouviram um disparo. Depois outro. Gritaria entre os carros, mulheres chorando, crianças correndo. Fecharam os carros e juntos com todo resto se puseram a correr para ver o que estava acontecendo. Corriam juntos. E o decote e as pernas da mulher pareciam ditar as regras de uma nova trilha sonora.
Estendido a alguns metros dali estava o rapaz das batatinhas. Um pouco mais a frente um homem gemia com a mão na barriga. Policial, uniforme manchado de sangue. Morrendo. Indo embora daquele inferno. O parceiro desolado escorada na viatura.
“Estavam indo para uma conferência.” Um outro homem falava. “O guri veio correndo de arma em punho, ele ( apontou para o moribundo) tentou pará-lo, o guri atirou, acertou ele na barriga, foi então que o outro atirou e derrubou o moleque. Fim.
Eles aproximaram do policial sobrevivente. “Qual o motivo do engarrafamento?” “Acidente, um cara bateu em um caminhão.”
Ele e a mulher olharam-se e continuaram caminhando. Não havia nada para fazer. Todo o mundo caminhava entre os carros, conversavam... Brigavam.
Ele pensou no seu artigo sobre as complexidades do ser humano... o decote e as pernas da mulher ultrapassaram-no alguns passos, e lê pode conferir a exuberância do corpo inteiro da fêmea que o acompanhava. Complexidades.
Tomou fôlego. Ia dizer que era escritor, sensível, intelect... A mulher já corria, passos largos. Na frente enfermeiros, policiais, equipe de salvamento... Ele estava exausto. Tentou acompanhar a mulher. Tentaram impedi-la de aproximar-se. Ela falou algo. Foi permitida sua presença. Foi então que ele ouviu a gargalhada. Uma longa gargalhada, misto de dor, angústia e alívio. Caiu ajoelhada junto ao carro em pedaços. Levantou-se novamente e com passos firmes seguiu caminho. Sem olhar para trás.
Ele correu até a equipe de resgate e socorro. Fez perguntas, gesticulou, e enquanto observava atônito o corpo ondulante da mulher perder-se entre as filas de carro e pessoas, um dos policiais apontava para o acidente e dizia: “O marido dela.”


quarta-feira, 19 de março de 2014

PONTO FINAL



Não. Ainda não era o que deveria. Ser. Seria das palavras. Seria o corpo e mente. A boca da palavra. Era isso. Queria isso. Queria ser verbo. Era imprescindível ser. O discurso. Todo ele. Em todos os gêneros. Em todos os tipos. Tinha que ser. Não lhe bastava o corpo exato. Medido em carne e osso e sangue. Queria o outro. Sangue negro da tinta. O sangue nobre do corpo do texto. Sangue que escorre pelas páginas e diz. Fala.
Mas não era. Era muito aquém disso. E daquilo. Era a lacuna e o espaço branco. O silêncio da palavra. O espaço do desespero do verbo que não se concretiza. Túmulo do verbo.
Frustração. Os dedos buscavam o ritual. Dança frenética em busca da magia que abrisse as portas para aquela outra dimensão. Noites de encantamentos em vão, de mandingas e bruxarias. Mas não havia nenhum portal, nem uma porta a ser aberta. E lhe era negada a entrada naquele mundo outro que tanto almejava.  O que conseguia nos textos eram espaços, lacunas, travas, tombos.
Sua mágica não era boa. Nem suficiente. E suas gavetas de bocas abertas esperavam a ração diária. Alimentação literária.
E sofria. Muito. Via o mundo através de palavras. As ações eram descritas, reescritas. Parecia estar sempre narrando sua própria vida. Produzindo artigos científicos de suas dores. Crônicas de suas mazelas particulares. O mundo era um texto. E em cada reles espaço havia uma palavra a ser decifrada, quebrada e  descoberta em todas as suas possibilidades.
Mas era triste. Muito triste. Aquela tristeza dos grandes clássicos. Tristeza clássica.
Um dia estendeu um lençol branco no chão. Página mortuária. Deitou o corpo em enigma e resolveu morrer. Corpo-letra. Ponto. Símbolo.
Naquele dia as gargantas das gavetas foram devassadas por parentes e amigos. E o silêncio falou. E dos espaços e quebras e frestas de sua morte, imagens e sons se fizeram. Em lágrimas de olhos outros. Em verbos que dançavam loucos.  E sua morte fez-se letra e frase. E livro. E texto.


sábado, 15 de março de 2014

A LARANJA





Muito alta. E na parte mais alta. Zombando de sua impossibilidade, ela. Grande e vistosa. Redonda. A laranja.
Rosto voltado para cima maquinava em seu pequeno cérebro artimanhas fantásticas para apanhar a grande laranja. Outras menores e sem graça estavam ao seu dispor. Mas a grande. Ela. Estava longe. Distante de seus sete anos de idade.
E o pior de tudo é que era um homenzinho como a sua mãe dizia. Não devia pedir ajuda. Aquilo era uma questão de honra. Era entre eles. A laranja e ele. Mas era alto. Isso podia ver. Do alto ela continuava zombando.
Pedra. Sim. Colocaria à baixo todo o orgulho daquela laranja à pedradas. Agora ela sentiria o poder do seu braço. Agachou-se no chão e apanhou uma pedra. Precisaria de mais – pensou – e ao pé da laranjeira amontoou um pequeno número de pedras de todos os tamanhos e formas.
Da janela de casa a mãe observando as “funções” do filho resolveu aproximar-se para ver o que acontecia e perguntou-lhe o que fazia. Apanhado de surpresa e não querendo se “entregar” e pedir a ajuda da mãe respondeu que estava fazendo uma montanha de pedras para carregar com o carrinho de plástico. O olhar do menino misto de mentira e ingenuidade era algo digno do sorriso que se fez no rosto materno. “Tudo bem meu filho, mas não vai te machucar... qualquer coisa a mãe ta lá dentro.” E com passos lentos e ainda  com uma rápida olhada para o filho a mãe voltou-se para os seus afazeres.

Levantou-se do chão onde estava sentado juntando as pedras e o pânico tomou conta. Quase chorou, quase chamou definitivamente a mãe. Mas segurou. Resistiu firmemente, “era um homenzinho...” aos seus pés jazia uma laranja, enorme furo, morta, seca. Um grande pássaro estava próximo de sua laranja. Ia furá-la, estragar a fruta, vencê-lo. Frustrá-lo para o resto da vida. Ficaria traumatizado. Ouvira seu pai dizendo esta palavra quando olhavam televisão, achou bonita, perguntou ao pai o que significava... o pai respondeu alguma coisa que ele não entendeu bem... sabia que tinha a ver com tirar algo de alguém, fazer alguém sofrer... por aí. Se o pássaro comesse sua fruta, estaria marcado pro resto da vida, seria um terrível “traumatizado”. Foi então que em desespero começou a tocar pedra na árvore. O pequeno corpo no esforço de jogar pedras nas alturas.

Na cabeça. A pedra elevou-se, parecia ir longe, mas de repente, sem mais impulso, força ou vontade parou. Ele observou. A pedra morreu no ar. Os olhos do guri se arregalaram, e ela voltou. Certeira, veloz, pesada, “pum”. Na testa. O guri caiu, tentou segurar o choro, levantou-se, o corpo tremendo de vergonha, raiva e dor, os braços frenéticos no ar, as pernas saltitando e fazendo o pequeno corpo dar pinotes engraçados. Gritou. Chorou. A mãe e o pai correram. Não parava de chorar. A mãe perguntava o que acontecera, o pai com o filho no colo tentava encontrar alguma coisa errada, um arranhão, um machucado. Ainda aos gritos o menino percebeu no céu o pássaro que estava na árvore. Assustada a ave resolvera fugir. Olhou para o lugar onde a laranja se encontrava, lá estava ela. Parou de chorar e pediu pra sair do colo do pai. Disse que estava bem, que fora só um susto...o pai desconfiado olhou pelo terreno, procurando algum bicho, inseto, mas não encontrou nada. “Não quer olhar TV meu filho?” Não, o guri não queria, e os pais por fim resolveram voltar para dentro de casa. Aliviado e enfurecido, o “galo” na cabeça incomodando, o pequeno homem apanhou um pedra grande e atirou contra a árvore. Errou. E sobre o muro a pedra passou. A criança ouviu quando uma vidraça se espatifou. Do outro lado uma voz de homem gritou uma palavra que ele tinha lido na escolinha, na porta do banheiro, mas que não sabia o que significava. Mas pelo jeito que o homem falara não devia ser coisa boa. O coração parecia que ia sair da boca e um medo pesado e opressivo tomou-lhe o corpo e a mente. Seria preso. A polícia viria pegar-lhe. O resto da vida na cadeia. Como os filmes que via na noite quando o pai dormia e ele voltava a ligar a TV do quarto. Tinha que fugir. Tinha que fugir! Correu pra dentro de casa, apanhou a pasta do colégio, tirou os cadernos, enfiou o urso de pelúcia, apanhou a espada do He-man, precisava de proteção. Juntou um saco de biscoitos no armário, uma garrafinha de água na geladeira e ganhou a rua. Correu para a porta exatamente no momento em que o vizinho apertara a campainha. Tinha que ser agora. Deveria ser rápido, frio e calculista. Esperou o pai aproximar-se, no exato momento em que a porta abriu-se ganhou a rua. Uma golfada de ar gelado, uma sensação estranha invadiu seu corpo. Agora estava sozinho. Ele e o mundo. Não tinha casa, pai, mãe, amigos. Só o mundo e os perigos das aventuras que surgiriam. Correu para as esquina, o lugar mais longe que fora até agora. Faria seu lar ali. Sim. Aquela esquina seria seu novo lar. Faria uma cabana, encontraria um cachorro como amigo e começaria uma vida nova.

Sentou-se em uma calçada e pensava na vida quando o Jovenal, o dono do armazém chamou-lhe. “Brincando seu Veriatinho?” O menino aproximou-se, peito estufado, olhar severo e forte. Agora era um homem enfrentado o mundo. “Fugi de casa, agora estou morando sozinho.” Os olhos do Jovenal, homem gordo e simpático sorriram. “Então o jovenzinho resolveu abandonar a família?” O menino apenas fez que sim com a cabeça. “E onde vais morar?” “Aqui.” respondeu o menino. “Vou fazer minha casa nessa esquina.” O Jovenal entrou para o armazém e voltou com uma grande caixa de papelão. “Toma então, tenho uma bela casa aqui.” Os olhos do menino se iluminaram. Escorou a grande caixa de papelão ao lado do armazém e entrou. Uma sensação de conforto invadiu-lhe o corpo. Agora estava protegido, dentro da sua própria casa. Pegou a espada do He-man, abraçou-se ao urso e “enroscou-se como um cachorrinho para dormir”.  As aventuras se sucediam uma atrás da outra. Dragões, feiticeira, índios, monstros, todos eles eram derrotados pela sua grande espada encantada. Lugares estranhos e nunca vistos eram desbravados, por onde andasse as pessoas o cumprimentavam, pediam sua ajuda. Sem dúvida tornara-se um grande herói.

Acordou ouvindo a conversa do pai e da mãe. “Esse guri...” foi o que mais ouvia das conversas. Olhou assustado para os lados, estava no quarto, o seu quarto. A caixa de papelão do seu Jovenal ao lado da cama. “Pois é...” era a voz do Jovenal “ O rapazinho deitou na caixa e dormiu como uma pedra.”
Estava novamente em casa. o que aconteceria? E a polícia?

A mãe entrou no quarto, afagou-lhe os cabelos. Isso era bom. Muito bom. Algumas palavras. Muitos sorrisos. E a noite veio. O sono e o sonho.

No outro dia jogava bola no pátio. Era um grande jogador de futebol, a árvore era o adversário, ridículo, pesado, e ele driblava o oponente do jeito que entendia, era um craque do futebol. Correu, driblou, cansou. Sentou-se satisfeito, o jogo havia acabado trinta e nove a zero para ele. A árvore não havia feito nenhum gol. Sentou-se no chão. Ofegante. Um silêncio enorme invadiu a manhã. “Pum” a laranja despencou na sua cabeça.  Meio tonto e enfurecido, sem perceber o que fazia, apanhou a laranja e lançou-a sobre o muro. Arregalou os olhos. Uma careta. Esperou o berro que escalou o muro e saltou aos ventos:

- Mas que merda!!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

NA CARNE






     E não era ninguém quando morri. Apenas o espaço vazio da porta e a dor na barriga. E já os olhos me iam com imagens de indefinição.
     Um rosto estranho. Pálido. E um estampido a me arder a carne. Segundos. E só eram os pés dele que via.
     Sapatos de brilho singular. Minha cara de espanto, distorcida no verniz dos pés dele. Meu olho que se alarmava à proximidade do cano que descia até minha testa. E então o nada.
     Mas por segundos...
    
     Ele não sabe. Nem imagina. Mas estou nele. No seu passo firme e convencido. Agarrado em sua carne. Mesmo que quisesse não conseguiria.
     Ele é saboroso em sua maldade incondicional. Alimento pra minha fome etérea e eterna.
     Exala confiança enquanto pelas brechas e poros da sua carne, invado sua sanidade.
     Acha que não sente nada. Pensa que me esquecerá em segundos. Mas meus dentes devoram seu cérebro e suas memórias.
     Acredita que no bar, encoberto pela fumaça e álcool  se livrará do meu corpo a mastigar-lhe.
     Belo em sua boca o álcool que escorre. Etílico elemento. Vejo seu coração. Pulsando... pulsando.
     Um carro estaciona e somos levados. O homem gordo cara fechada pergunta “deu tudo certo?” “Sim.” É a resposta. Então um envelope é trocado de mão. Dinheiro que recende a sexo e drogas. Os bolsos estão cheios. O carro nos larga e a algumas quadras meu assassino entra no ônibus e senta para morrer.
     Não há inferno nem demônio. Há apenas a fome. Todos têm fome. Tudo tem fome.
     A humanidade é um termo... conceito muito limitado. Dirão que não sou humano. Que sou um demônio. Não sei. Sei apenas que este coração tem o gosto de toda minha fome. Todo o meu desejo.
     Provavelmente ele sentirá dor. Abrirá a boca em grito mudo, mãos no peito. Falta de ar... O corpo debatendo-se no chão.

     Na minha boca, escorrendo, o suco amargo e delicioso de todas as mortes.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Sobre como parar em esquinas



 Há uma música que é só minha. Cérebro – fora o silêncio da rua. O silêncio singular do caos. E um vento. Sopra razoável, rosto, cabelo, terra. Movimento. A carne e o metal disputam os fluxos. Da rua. Ir e vir e estar. Cadáveres de metal esperam a carne, zumbis mecânicos. Devorar a carne humana e seus desejos de mobilidade. Necessidade.
As cores alternam passos e rodas, tudo borracha no asfalto. Largos os passos. Rápidos os espaços de não ficar.
Um aceno. O rosto conhecido me arranca do texto e do asfalto. E passa. Sua vida, tempo e espaço. Eu fico. Finco meu corpo nesta esquina. Imóvel corpo. Estranho aos que escorrem nesse fluxo. Olhos buscam o meu texto. Mas sou eu. O texto. Os pés e os carros minhas palavras. E tudo é símbolo. E som e ritmo.
Por cima a conexão. A aranha tece sua trama. Fios, linhas de relacionamento. E o vento agora. Não há sol. Nublado. E os corpos não param de deslizar na minha imobilidade. E mesmo sozinhas eles se conectam. Músicas escolhidas embalam passos e pernas; o “outro” no ouvido. O fantasma do outro sempre ao lado. Esquizofrenia.
Os óculos escondem os olhos. Só a lente. Esteticamente as lentes. “E eu... gostava tanto de você...”.
Caso certo, interessante. Escrever na rua não é algo comum. Deveria. Sim. Comum é o carro. O zumbi mecânico. E o cão. Rebelde e sujo. Vários. Contrastam com fluxo mecânico. Língua de fora. A língua deve estar fora. Fugir da grande boca gramatical.

Nos corpos as roupas todas, e penduradas nele às bolsas, sacos e sacolas de carregar “coisas” para o corpo. A bagagem do corpo. A maquiagem do corpo. A identidade do corpo. A comida do corpo. A diversão para o corpo. Também há os espaços de guardar e depositar. O corpo e seus desejos. E há as possessões de um corpo pelo outro. A mão segura o outro, afeto e posse. Segurança e controle. Há um contrato. A relação constituída. A experiência dos corpos. Correr e caminhar... é mais que meio-dia e lá vai... o meu corpo no fluxo de todos os outros corpos...


Ronie Von Rosa Martins