Escrever?

"Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga" (Gilles Deleuze)
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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Vício Nacional - Parte 1


 A telenovela brasileira já foibem melhor. Teve conteúdo e autenticidade. Foi celeiro de escritores e artistas teatrais.  Agora só reedita clichês, renova carinhas bonitas e corpos sensuais. Chamar este produto de "novela" é subverter e desclassificar o estilo literário. 

Dia desses revi um capítulo de "Água Viva", em reprise numcanal a cabo. Em cena, o falecido Raul Cortez, que sempre me fez vê-lo como um ovo falante. Esta era a imagem em ação que eu formava na minha cabeça infantil, na época em que a telenovela foi exibida pela primeira vez. Talvez, por deter tamanha expressão natural no rosto, o ator abusava do recurso das pausas dramáticas teatrais. Silêncios para o espectador imaginar o pensamento da personagem. Outras feras da dramaturgia também o faziam. Uma época boa em que imaginar e ver televisão ao mesmo tempo, era possível.
Hoje, não! A edição é clipada. Frenética. O espectador, hipnotizado. Travado no sofá e longe do controle remoto. O que interessa para as emissoras é manter o aparelho ligado para dar audiência. Na novelinha idiota, as personagens pensam em voz alta e o espectador passional ou inocente, reproduz este comportamento, automaticamente.

Tudo muito bem pensado na lógica comercial. Os comandantes de programação de TV são inteligentes e não brincam em serviço. Treinados em neurolinguística.Inteligência emocional. Análises de discurso. Mestres na arte mambembe de fantoches e ventriloquia. E manipulam bem...

Reparo que as pessoas viciadas em folhetins televisivos costumam narrar os fatos corriqueiros do cotidiano: "Bem... entrou o comercial da novela... Vou na cozinha tomar minha água porque estou com sede e vou ao banheiro fazer xixi porque a bexiga tá cheia e esse sofá me dá dor nas costas..."  Falam tudo o que pensam. Agregam importâncias a coisas corriqueiras. Riem e choram com melodramas rasteiros e bobos.

E os comportamentos neuróticos e histéricos dos adolescentes? Artistas amadores que ainda não dominam a arte da representação, interpretam nervosismo com gritos e xingamentos. Os diretores não percebem ou fazem vista grossa? A massiva exposição em rede nacional transforma estes projetos deatores e atrizes em toscas celebridades e exemplos a serem seguidos por adolescentes de todo o país. Para muita gente, trata-se de moderna lavagem cerebral e covarde ataque aos autênticos costumes regionais e interioranos.

Salvas exceções, a grande maioria dos renomados novelistas não demonstra ou admite preocupação com as consequências de suas tramas diabólicas. Estes novelistas debruçam-se sobre a licença poética da ficção como justificativa para incoerências. São escritores prestigiados. Afetados pela vaidade, a soberba e não raro os demais pecados capitais. Talvez por experiência própria, estes criadores de comportamento demonstram conhecer muito bem o submundo das sensações humanas. Chafurdam nos esgotos dos sentimentos perversos para desenterrarem seus toscos personagens. Os novelistas tem poder. Assim como os marqueteiros políticos, reinventam um mundo de mentiras que, a posteriori,serão reproduzidas e assimiladas como verdade pelas parcelas incautas da população. 
Exagero? 
Esta é uma obra de realidade. Qualquer semelhança com a ficção não é mera coincidência.

Marcelo Coelho

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Além das Nuvens ou Entre Nuvens e Cavernas

Além das Nuvens
 ou Entre Nuvens e Cavernas

Onde? Do lado de fora da caverna! Logo que saí não me contive. Fui desbravar. O que eram aqueles rabiscos e relevos na rocha? Como foram feitos? Quando? Por que e por quem? Demoraram muitas eras mas conseguimos identificar os caracteres. Uma vontade em compartilhar razões e emoções. E nasceu a linguagem escrita. E Fiat Lux! As ideias brotaram diante dos sentidos. Organizaram-se em mensagem, partiram em caravanas para ligar emissores a receptores. Nem sempre encontraram nexo, sentido, lógica, coerência, sensatez. Mas houve que extraísse a essência, convertesse um novo pensamento, palavra ou ação; para armazenar ou transformar. Quanto movimento evolutivo a leitura oferta na longa jornada do conhecimento!
Mas e a criação individual? Quem de fato detém o saber? O reconhecimento pertence àquele que primeiro registrar a ideia, claro. O que seria da máquina capitalista sem royalties, patentes, direitos autorais? Surge numa inspiração pessoal aleatória ou é uma permissão de acesso aos arquivos acásicos para poucos credenciados? Toda a sabedoria está encerrada no plano das ideias, dizia Platão. Cada escritor, com seu esforço e merecimento alcança algum pedaço ínfimo desse imenso tesouro intangível e tão sublinhado de verdade. E não basta sair da caverna... É necessário coragem para enfurnar-se noutras!

Quantas vezes pensamos em algo interessante. Um verso... Uma melodia... Um conceito... Uma solução... Uma ideia “nova”, que por algum motivo deixamos para lá e não a materializamos ou convertemos em ação. O tempo passa e de alguma forma chega ao nosso conhecimento que alguém teve a mesma ideia, colocou em prática e alcançou o êxito com ela. Você já passou por esta sensação de que alguém teve a mesma sua ideia não foi compartilhada com ninguém? Quando acontece, logo surge a pergunta culposa: “Por que não coloquei essa ideia em prática antes?” Ser ou não ser? O único... O primeiro... O original autor... Especulo que isso acontece porque as ideias flutuam sobre nossas cabeças feito nuvens. Repousam não num minúsculo pedaço de silício, disco, fita, vinil, acetato... Rocha arcaica! Estariam num a inovadora substância não comprovada cientificamente mas apontada por muitas filosofias tão antigas quanto avançadas.  Uma espécie de éter prânico ionizado que nos reveste em camadas como se fôssemos Matrioshkas. Uma invenção do Grande Arquiteto do Universo onde todos os pensamentos ficam gravados com qualidade pra lá de sete dimensões! Espero um dia entender como tal mecanismo físico ocorre. A ciência tecnológica já engatinha na direção certa. A prova é a “nuvem”: Nova forma de armazenamento de dados digitais em rede, desenvolvida por um renomado fabricante de computadores que batizou o novo serviço de iCloud. Aliás... Nome copiado de um produto concorrente. Até tu, Brutus S. Jobs! Lavoisier esteja convosco!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A Mentira



Máscara neolítica - 7.000 a.C.


A mentira é tão antiga quanto o desejo de alcançar e manter o poder. Os dois se retroalimentam em motoperpétuo. A sociedade se compraz na falácia, na fofoca, no ti-ti-ti. A máscara e o personagem seduzem os incautos. De fato, a realidade é cruel para muitos e fugir dela é uma necessidade. Na alienação, o hedonismo grita por pão e circo.

Dia destes sentei em frente ao iluminado retângulo alienante e busquei pela verdade nos conteúdos da TV aberta. Encontrei vestígios num telejornal de prestígio ancorado por um publicitário que fazia caras e bocas para chamar as reportagens. Nada de novo. A realidade numa versão leviana, superficial, adornada pela estética visual cinematográfica. Noutro canal, (de esgoto noticioso) o apresentador vociferava contra os direitos humanos e pregava a pena de morte com o dedo em riste. Parecia candidato político.

Zap! Noutro canal, algo não me cheirou bem. Um repórter se ufanava por ter conseguido uma matéria exclusiva sobre um fato “sensacional”! O banal flagrante de um tiroteio entre policiais e traficantes. Imediatamente recordei de um costume terrível das chefias de reportagem, que na falta de assunto, ligavam para algum batalhão da PM e arranjavam uma operação às pressas, na favela mais próxima. Sempre odiei esta farsa e nunca aceitei este circo, o que me valeu fama de “derrubador de pautas”.

Adulteração dos fatos? Pior! Fabricação de notícias! Tiroteios são fáceis de serem simulados e os policiais nem precisam prestar conta das munições utilizadas no suposto bang-bang. O som das rajadas de fuzil pode facilmente ser adicionado à narrativa na hora da edição ou até mesmo durante a gravação da reportagem. Basta um smartphone com internet. No Youtube existem milhares de vídeos demonstrativos de fuzis. É só encontrar um, colar o autofalante do telefone no microfone e ”dar play”. Touf ,touf, touf, touf, touf... “Tiros... Tiros... tiros... Abaixa aí... É fuzil... HK 47... Kalashnikov... russo... o mesmo do filme Senhor das Armas!”, grita o ofegante repórter novato e muito bem intencionado na carreira de mentiras. Para os desavisados, iria parecer bem real! Que jornalista não conhece algum colega capaz deste simulacro para garantir um “furo” e turbinar telejornais trash news, onde o conteúdo é escravo da pesquisa instantânea de audiência coletada através de amostragens pífias, secretas e nunca fiscalizadas.

A cada troca de canal, novas sentenças falsas, afirmativas levianas, ilusões. O intervalo comercial é um show de propagandas enganosas. O que seria do marketing sem o “caô”. A presepada. Alguém acredita em desodorante que proteja 24 horas? Falar de graça ao celular? Instituições bancárias que garantem o futuro? Lorotas sem fim! E tem gente que acredita. A ingenuidade é terra fértil pra mentira.

Zapeei novamente e fui parar num programa de auditório. O cantor se esforçava pra impressionar o público num evidente playback. A encenação do instrumentista no palco para dublar o som gravado em estúdio beirava o ridículo. Todos os artistas simulavam performances. E este recurso ainda é amplamente utilizado.
As novelinhas então... Não vale a pena ver de novo os mesmos estereótipos de sempre. A megera, o bufão, o pilantra, o homoafetivo, a prostituta, o mocinho narcisista...

Tanta gente adora mentira. Tanto, que acredita nela. Falsários que até ensinam aos filhos que mentir é preciso. Um dia destes, um estudante de jornalismo me disse que não via vantagem em ser honesto e falar a verdade. Minha primeira reação foi parabenizá-lo pela revelação contraditória. Ele acabara de assumir uma verdade escondida ou negada pela maioria. Convidei o “corajoso” e o restante da turma para a seguinte reflexão: Quando você adoece, gostaria de ser atendido por um falso médico? Quando o carro estraga, você pede ajuda para um mecânico fajuto? Quando você vai ao restaurante, suportaria saber que aquele arroz de brócolis é reaproveitamento de comida dos dias anteriores? Imagine morar num edifício projetado com cálculos mentirosos, custos superfaturados, material de má qualidade. A tragédia na Boate Kiss, em Santa Maria, os desabamentos dos edifícios Palace II e Liberdade no Rio de Janeiro; ou o recente prédio do Magazine Torra-Torra, em São Paulo. Imperícia, imprudência, negligência. Seja qual for a causa principal, a mentira estará sempre por trás. Quantos fatos tristes se repetem por causa da falsidade?
As leis que regem a natureza tem a verdade como essência e a ela devemos voltar.


 "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará"- João 8:32

Marcelo coelho é jornalista e músico. Nasceu em Santa Maria mas cresceu e pegou gosto pelas artes e a comunicação em Pedro Osório. Há 20 anos vive no Rio de Janeiro onde possui uma produtora de conteúdos audiovisuais que presta serviços para vários meios de comunicação.


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

PIPAS BRANCAS NÃO VOAM MAIS






O fim do inverno traz novos ares de alegria. Recordações de divertidas primaveras no meu tempo de guri. Nos anos setenta, as compras não vinham em saquinhos plásticos ecologicamente incorretos como hoje, mas em embrulhos de papel amarrados com linhas grossas de algodão. Aquela embalagem servia para carregar roupas, remédios, alimentos. Desfeitos os embrulhos, o cordão e o papel não iam imediatamente para o lixo. Na prática e de forma inconsciente, os moleques da época já experimentavam a sustentabilidade.

Os cordões e papéis eram reaproveitados no brinquedo favorito: A pipa. No Rio Grande do Sul chama-se “pandorga”. Não comprávamos os brinquedos prontos. Fabricávamos em casa. Dos embrulhos desfeitos, eu pegava os papéis encerados de pão, mais resistentes do que o papel jornal. A estrutura da pandorga era de varetas finas de taquara (bambú), amarradas com os cordões dos embrulhos. O papel era colado nas varetas com grude, cola artesanal feita com farinha de trigo. A água misturada ao glúten formava o gel viscoso que bem substituía a cola Tenaz.

A pandorga também tinha um rabo, feito de retalhos de pano. Era o peso dele que mantinha o brinquedo estabilizado no céu. Paradinho. O papagaio só decolava em dias de vento forte, o que era comum no clima temperado do sul. Uma brisa, não servia.  

Uma vez no céu, a pandorga despertava euforias. Para os mais racionais, o sucesso de um projeto bem elaborado e executado... O requinte tecnológico era o “roncador”. Um pedaço de papel solto de um lado e preso a uma linha do outro, que tremulava e emitia um ruído forte cada vez que se puxava a pandorga com força. “vruuummmm... vruuummmm”. Parecia um pequeno motor!  

Para os mais emotivos, a posição privilegiada da pandorga estabilizada no ar despertava variadas divagações. A possibilidade de voar...  A curiosidade em ver a paisagem do alto...  A própria estrela sob domínio da mão... A imaginação querendo arrebentar a linha e seguir para além do horizonte...

O que menos passava em nossas cabeças infantis era guerrear! Uma pipa derrubar a outra? Isso não era brincadeira de bom gosto nem inocente. As pipas brancas (todo o pão vinha em papel branco),lado a lado. Cada uma com seu sonho respeitoso! E a paz era garantida pela linha de algodão. Puro. Sem misturas. Os cordões dos embrulhos eram emendados uns aos outros. Só quem possuía melhores condições financeiras podia comprar um rolo inteiro, com 100 metros de linha nova.

A gurizada do meu tempo não achava graça em destruir o brinquedo do outro em guerras de pipas com linhas cortantes. Isso não existia no meu grupo de amigos e não lembro de ter visto tal brincadeira perigosa durante minha infância no Rio Grande do Sul. Era um tempo de pais presentes, sempre alertas às nossas possíveis inconsequências.

Logo que me mudei para o Rio de Janeiro, há vinte anos, percebi que as pipas daqui eram diferentes no jeito e no conceito. No clima subtropical venta menos.  As estruturas são bem menores, mais leves, coloridas e inquietas. Mas o que mais assusta é o uso frequente da mortal linha cortante. Nas áreas mais pobres da cidade, me assombrou ver o céu infestado de pipas conduzidas não só por crianças mas por adolescentes e até adultos viciados em infância... E algo mais!


Hoje. sempre que um ciclista, motociclista ou “homem asa” vira notícia após ser degolado por uma linha assassina, aumenta minha certeza de que as pipas não são mais pacíficas. O tempo de ingenuidade voou para longe, emaranhado no rabo de pipas perdidas em dia de vendaval. Foram pervertidas pela violência. Viraram armas no meio dos "pipas voadas". Uma “peça” perigosa que dispara navalhas perdidas. 

Marcelo coelho é jornalista e músico. Nasceu em Santa Maria mas cresceu e pegou gosto pelas artes e a comunicação em Pedro Osório. Há 20 anos vive no Rio de Janeiro onde possui uma produtora de conteúdos audiovisuais que presta serviços para vários meios de comunicação.