Através de uma escrita que habita os espaços dos blogs literários, este projeto pretende fazer pensar caminhos outros para uma educação que se relacione com as possibilidades advindas das novas tecnologias de informação e comunicação. Outro olhar para a formação das subjetividades blogadas. Discorremos sobre uma ideia de formação atravessada e arejada pela Literatura, Arte e Filosofia da Diferença que pense o saber para além da cientificidade.
Escrever?
"Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga" (Gilles Deleuze)
quinta-feira, 13 de março de 2014
segunda-feira, 3 de março de 2014
Vou de Palhaço em 2014
É Carnaval, Festa do Momo, do Povo, Esquindolelê...
Hora de botar o bloco na rua. O Black Block na rua de novo!
Porque protestar é “IN”, é da hora, tá na moda.
Ano de Eleição e Copa do Mundo, 2014 vai ser uma festa.
Uma festança que custará bilhões aos cofres públicos.
“Vamos celebrar a estupidez humana”, disse o poeta Renato
Russo.
Imagina o festerê nas piscinas das mansões dos políticos e
empresários.
Que tornaram-se tão bem sucedidos, que muitos outros
terminaram nas favelas.
Li que o atual prefeito do RJ teve apoio milionário de
grandes empreiteiras;
Li também que já foram desalojadas para “novas” moradias,
mais de 100 comunidades.
Por causa da Copa 2014 e da Olimpíada, em 2016... Não se
engane:
A roubalheira rola com ou sem esses eventos. A Saúde e a
Educação também...
Viva o Brasil-Canteiro-de-Obras de 2014; o Brasil-Fantasia,
onde somos os palhaços.
Lá vão novamente os palhaços votar nos mesmos mentirosos
caras-de-pau:
“Vamos investir na Educação!”, dizem os donos dos circos;
“Melhoraremos a Segurança e a Saúde!”, bradam os
Sem-Vergonha.
E o palhaço troca o canal da TV para torcer para a Família
Scolari contra Camarões.
Vá você também para o arrastão na avenida enquanto roubam
seu lar.
Nesse Carnaval, esqueça o PS lotado e o banco te
surrupiando. Dance!
A tal da Classe Dominante à nos sugar o sangue pela jugular.
Lá vai um monte de ovelhas mansas a votar no lobo em pele de
cordeiro.
Enquanto no camarote os diretores de bancos e multinacionais
deliciam-se.
Os altos salários riem à beça da multidão de bobos-da-corte;
E eu espreitando tudo, como uma espécie de
palhaço-black-block que não vandaliza.
Assistindo a um tipo de Animal Planet, torcendo sempre
contra os leões.
E a favor do Brasil, contra essa turba de hienas
engravatadas.
E sou um palhaço sim!
Mas dos nervosos.
por Alvaro Lucas
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Acuado
Estaria cansado? Sim,claro. Um estado de lassidão. Imensidão de nada. Caminhar no deserto? Sem água? Quase. Quase o deserto. Talvez a multidão. A desértica multidão. Todos e nada.
Qual a estratégia? Haveria alguma? Estavam acostumados a todas as estratégias, agiam como inimigos. Não que houvesse algo para isso. Mas como um tipo, uma personagem, uma posição. A linha que diferenciava.
Tinha certa pena? Sim, claro. Eram jovens, imaturos, fortes e audazes. Mas imaturos. Quase infantis. Sinceridade que escorria da boca. Alegria que se mesclava perigosamente com indelicadeza. Juventude. Agressividade.
E ele. Velho? Sim. Pare eles. Para eles era um velho. O jovem parece desqualificar tudo que não vibra na sua sintonia, no seu gosto.
E ele? Estava cansado.O discurso as vezes se erguia em busca de recepção. Mas já era só retórica. Rebatido pelo desdém, indiferença, impenetrabilidade.
Ouvir? O ouvir era uma coisa impositiva. Ordem, ameaça. E sofria. Pois na ação empenhada, contrariava sua própria forma de pensar. Mas estavam todos dentro da estética do rebanho. Da ordenação. A sociedade gostava disso. Alguém ordenando, decidindo, dizendo e definindo. Os outros seguindo. Através de mecanismos disciplinares e corretivos.
Quando acabou. Recolheu o material. O trabalho, o resultado. Eles correram para a rua. Alegres, como se estivessem presos, encarcerados. Como se ele, o velho, fosse o carcereiro de suas liberdades. Era?
O café na mesa. O estofado. A perna cruzada. A conversa dos colegas. A mesma. Sempre a mesma. No mural mais afazeres. Reuniões, trabalhos, notas, documentos e mais...
Na bolsa um livro pulsava. Gostaria de abrir. Ler. Ler ainda era um caminho. Sabia. Pelo menos para ele. Nirvana. Religião.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
" A feiura é fundamental, ao menos para o entendimento desta história. É feia, está que vos fala. Muito feia. Feia contida ou feia furiosa, feia envergonhada ou feia assumida, feia modesta ou feia orgulhosa, feia triste ou feia alegre, feia frustrada ou feia satisfeita - feia, sempre feia."
(A mulher que escreveu a Bíblia - Moacyr Scliar, 2003, p. 19)
NA CARNE
E não era ninguém quando morri. Apenas o
espaço vazio da porta e a dor na barriga. E já os olhos me iam com imagens de
indefinição.
Um rosto estranho. Pálido. E um estampido
a me arder a carne. Segundos. E só eram os pés dele que via.
Sapatos de brilho singular. Minha cara de
espanto, distorcida no verniz dos pés dele. Meu olho que se alarmava à
proximidade do cano que descia até minha testa. E então o nada.
Mas por segundos...
Ele não sabe. Nem imagina. Mas estou nele.
No seu passo firme e convencido. Agarrado em sua carne. Mesmo que quisesse não
conseguiria.
Ele é saboroso em sua maldade
incondicional. Alimento pra minha fome etérea e eterna.
Exala confiança enquanto pelas brechas e
poros da sua carne, invado sua sanidade.
Acha que não sente nada. Pensa que me
esquecerá em segundos.
Mas meus dentes devoram seu cérebro e suas memórias.
Acredita que no bar, encoberto pela fumaça
e álcool se livrará do meu corpo a
mastigar-lhe.
Belo em sua boca o álcool que escorre.
Etílico elemento. Vejo seu coração. Pulsando... pulsando.
Um carro estaciona e somos levados. O
homem gordo cara fechada pergunta “deu tudo certo?” “Sim.” É a resposta. Então
um envelope é trocado de mão. Dinheiro que recende a sexo e drogas. Os bolsos
estão cheios. O carro nos larga e a algumas quadras meu assassino entra no
ônibus e senta para morrer.
Não há inferno nem demônio. Há apenas a
fome. Todos têm fome. Tudo tem fome.
A humanidade é um termo... conceito muito
limitado. Dirão que não sou humano. Que sou um demônio. Não sei. Sei apenas que
este coração tem o gosto de toda minha fome. Todo o meu desejo.
Provavelmente ele sentirá dor. Abrirá a
boca em grito mudo, mãos no peito. Falta de ar... O corpo debatendo-se no chão.
Na minha boca, escorrendo, o suco amargo e
delicioso de todas as mortes.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
Revéillon Déjà Vu
Às vezes fico pensando em como é pensar;
Vai-se ao longe numa pequena e distante viagem;
Agora, por exemplo, pensava que mais um ano (ou menos)
passou.
Alguns de nossos problemas tornaram a repetir-se. Outros até
aumentaram...
Mas coisas muito boas também aconteceram; Afinal, vive-se
para quê?
É nisso que dá o pensar. Voltar no tempo e tentar repetir o
que deu certo.
Aí vem o final de 2013... Não como o de 2000 com certeza, no
“bug” do milênio;
Na virada do século, mesmo que ela só tenha acontecido em
2001, é claro...
Mas isso é o tal de Ano Velho.
Pois já no Ano Novo, não se quer uma vida nova e, sim, a
mesma com reparos pontuais em nossos principais defeitos de fabricação...
Um novo pensar.
Esses dias, por exemplo, tomei um rico de um banho de rio
(na sombra!).
Foi simples e prazeroso, como só as coisas simples podem
ser.
Porém, outros seres, os não-tão-pensantes-assim, haviam
deixado para trás, desde fraldas
até garrafas de vidro e pacotes de bolacha e picolé. Lixo... Estou falando
das pessoas...
São do tipo... Vidas velhas, entende?
Aí fico eu, pensando
e viajando longe, até onde as pessoas não precisariam nem serem educadas; tipo:
o vivente já nasceria sabendo... Motoristas respeitariam os pedestres nas
esquinas, as pessoas cuidando de suas próprias vidas e, ao mesmo tempo,
colaborando para com as outras, sem
qualquer tipo de interesse e distinção; dando preferência aos idosos, crianças e mulheres. Tratando de
suas próprias vidas. Só isso.
Que tenhamos todos, um Ano Novo em nossas novas vidas
velhas; buscando sentir-se bem.
O pensar é o sentir e vice-versa. Sinta até onde o leva seu
pensar.
E agradeça ainda estar vivo por aí, peleando, matando seus
leões de estimação todos os dias;
Pois escrevo para você, que vive a cada dia duvidando de si
mesmo, desafiando-se; arriscando sua cabeça pelas coisas em que acredita;
fazendo, ao invés de olhar os outros fazerem.
Que 2014 seja o que tiver que ser! Que façamos as coisas
acontecerem para nós.
Que pensemos e sentimos.
Não necessariamente nessa ordem.
E, quando tudo tornar a repetir-se;
Saibamos que algo de errado está acontecendo;
À não ser que só as coisas boas é que se repetem;
Aí meu irmão...
É um abraço.
Venha 2014.
Vou lhe usar.
Se você deixar.
Pense e sinta.
Pois uns não pensam direito.
E outros jamais serão.
Que em 2014, você seja então.
Apenas isso.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
NUNUNHA CABEÇÃO
Cabeção. Óculos enormes. Cabelos
desgrenhados. Olhos que consumiam o visto. Braços magros e mãos finas. Dedos
compridos de lambuzar nos textos e chupar o dedo.
Ele não viu a menina que entrou
na biblioteca. Toda a biblioteca viu. Simplesmente linda. Mas ele não viu.
Cravado estava no livro. Plantado de corpo e alma no seu delírio de leitor
fanático.
A professora Ritinha havia
inclusive feito algumas observações sobre o comportamento anormal do menino,
“Esse guri só quer saber de ler. Não faz mais nada, só lê.” E esse “só ler” era
dito com uma espécie de frustração. Ao que a diretora da escola respondia que
“se ele está indo bem nas outras matérias...” e estava. Era uma espécie de
referência na sala de aula. Sabia dos deuses gregos, romanos e nórdicos pelos
gibis, conhecia as regiões e costumes de outros povos lendo as revistas
geográficas do pai, entendia de física e química porque lia um almanaque antigo
de ciências que ganhara de um professor amigo, mas sua predileção eram os
romances. Lia tudo. Tudo.
Mas era feio. Era esquisito. As
crianças o procuravam só quando precisavam ajuda em alguma disciplina. De resto
era Nununha Cabeção pra lá, um tapão na orelha, Nununha Cabeção pra cá, um
chute nas canelas e um empurrão. Não reclamava.
O nome era Francisco Nunes, mas herdara
o apelido de Nununha do avô, “seu” Nununha, o velho da banca da esquina. Diziam
até que essa mania de “comer” letras vinha do avô. Uma maldição.
Enquanto os amigos jogavam bola e
exercitavam o corpo, Nununha, de mirrado corpo exercitava o cérebro e a
imaginação.
E tudo era quixotesco. Dramas.
Comedias, tragédias.
Mas não viu a menina. E ela o
viu. Era trabalho de escola. Pesquisa sobre um escritor. Ela era de outra
turma. Mais adiantada.
Ouvira falar do Nununha. Entre
troça, espanto e admiração, era propagada a inteligência e a bizarrice do
menino.
As vezes no recreio, passava
horas acompanhando as formigas carregadeiras, olhar atento, quase tentando uma
comunicação que fosse capaz de resolver as dúvidas que lhe vinha na cabeça.
“Por que a fila”, “como tanto peso?” “o que diziam uma para as outras quando se
encontrava?” e assim ficava até o sino tocar ou alguém lhe dar um empurrão e
dizer que Acabara o recreio.
Levantava do chão e ia para a sala. Não via ninguém. Sua classe era
seu ninho. Nem o barulho dos colegas conseguia irritá-lo. Quando uma bolinha de
papel acertou seu olho teve vontade de chorar, mas logo lembrou de outras
histórias, de heróis que eram atingidos por balas, flechas, e pedras e resistiam
bravamente. Monstros haviam em todos os lugares. Acionou rapidamente o botão
que trancava as escotilhas da nave e fugiu daquele planeta hostil. Flash
Gordon.
Ela era bonita. E o namorado a observava
sorrindo da janela. A menina sentou em frente ao herói. Sansão prestes a sofrer
nas mãos de Dalila. “Oi?” e o inferno daquele dia em diante começara. Seus
olhos de traça pela primeira vez avistaram algo que merecia atenção além dos
livros e letras. Ela sorriu, disse que ele era bonito, que era interessante.
Que queria conhecê-lo melhor. Que seu nome era Estela. “Ele pensou Estrela.” E
um coração antes de papel e tinta preta agora batia assustado e estranhamente afoito. A mão dela sobre a sua.
Quente, pulsante. Galáxias que se tocavam. Queria chorar. Pela primeira vez
quis chorar. Ela levantou-o pelo braço, inocente. Ingênuo. O sorriso do outro
na janela. Nenhuma leitura conseguia avisá-lo neste momento do que o aguardava.
Ao transpor a porta. Toda a escola. Dois lados. Um corredor. Gritos e insultos.
Pontas-pé, tapas, empurrões, ofensas, gargalhadas e os olhos dele sem saber o
que acontecia. Procuravam a menina, os óculos no chão. Quebrados, chutados,
pisoteados. A pasta, os livros. Destruição. No fundo do corredor, abraçados
Estela e o namorado. Risadas. Um tombo. Uma vergonha. Uma vontade de morte.
Aos trinta e dois estava preso.
Aos quarenta e dois enterrado no cemitério da família.
Ainda hoje quando alguns passavam
pelo local lembravam com horror do Nununha Cabeção, o menino que pusera fogo na
escola.
Chamas enormes. Quentes.
Infernais. A cidade correndo como as formigas, mas não em fila. Desorganizados,
horrorizados.
Ele esperou o Jonas sair de casa.
Sabia que o menino não ia perder a festa.
“Qual o problema?” a resposta foi
um golpe violento. O cabo de vassoura
partiu-se. E o Jonas caiu. Estela choraria muito. A cidade inteira ia
chorar bastante.
Aos quarenta e dois anos decidiu
que não queria mais. Deitou no catre da cela, tirou os óculos do rosto e dormiu.
Desligou um botão que só ele sabia.
“Morreu” disseram.
Outros dizem que virou livro. Que
a biblioteca ficou assombrada. Escutam livros serem folheados e essas coisas.
E uma estranha fila de formigas
cortadeiras deu para atacar o acervo. Não há o que mate as danadas.
As vezes elas param e conversam. Dizem
que o Nununha sabia o que diziam.
Ronie Von Rosa Martins
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