Através de uma escrita que habita os espaços dos blogs literários, este projeto pretende fazer pensar caminhos outros para uma educação que se relacione com as possibilidades advindas das novas tecnologias de informação e comunicação. Outro olhar para a formação das subjetividades blogadas. Discorremos sobre uma ideia de formação atravessada e arejada pela Literatura, Arte e Filosofia da Diferença que pense o saber para além da cientificidade.
Escrever?
"Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga" (Gilles Deleuze)
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Rodar
Caminhar é bom. Rodar é
diferente. Nem tão rápido. Medida certa, tanto lenta quanto no furor do vento. O
movimento.
É do coração... e das
pernas que cansam numa alegria satisfeita. Simetria com chão, estrada e sombra.
A sombra segue sempre e o olho à sombra. Segue também. E é o tempo da roda. Movida
pela vontade. Músculo e paisagem. Pois o que se vê também é a bicicleta, e o
passeio, e a passagem e o movimento todo. E o vento. E o sol.
O rosto é visto e a voz
ouvida. Do outro que no contrário movimento faz que fica e continua em outro ritmo.
Os carros não contam. Frios e limpos. Rápidos
e cheirando a gasolina. Ovos de lata que chocam as vaidades de seus motoristas.
Que nada vêem. Embevecidos que estão por seus próprios reflexos que interpretam
importâncias para pequenos espelhos. Os carros não contam.
Contam as árvores todas
e a grama que nasce. E a roda que na velocidade exata percebe um verde que se
singulariza de outros tantos verdes que já não são os mesmos. Nem os sorrisos. Diferentes
todos. E as caras fechadas. Todas diferentes. E belas. A visão libertada de janelas.
Olhos que vêem, mesmo no precipitar das duas finas rodas, rugas e vidas que se
enredam, se enroscam...
Há também o som. Ou o
fone e a escolha sonora. Música para rodar. Música para se perder para além do
asfalto. Fugir do asfalto. No chão e no buraco. Deslizar. Fluido. Parar para
atravessar a tartaruga, vislumbrar o sofá antigo e vermelho jogado inconseqüentemente
no pequeno riacho, que serve de assento para todos os fantasmas e criaturas do
campo. Se o alcançasse, também descansaria alguns momentos ali. Mas, agora, é
templo sagrado de mistérios e ninho. De pássaros ou cobras. Somos todos. Um pouco
de cada. Cobras e pássaros. Voamos e rastejamos. Então rodar. Mesmo que o braço
canse e a perna chore. O mundo está esperando. Mesmo o pequeno espaço que
conseguimos alcançar. A quantidade de terra que conseguimos atravessar. A ladeira
que nos ameaça e se insinua. E o pneu que murcha. E as costas que cansam.
É o espaço e o tempo
outro. Longe ficam o resto todo. Prisões e apreensões sociais, vaidades e
obrigações, deveres aparências. Só a sombra aprendendo a ser nada. A bicicleta
e o homem. Metamorfose de carne e metal na construção interessante de um nada
necessário. Deserto. Repleto de tantas coisas, mas sempre vazio. Aberto para
todos os caminhos impossíveis.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Dessas coisinhas de amor
Ao levantar, noite terrível. Insônia. Pesadelo.
Suador também. Riu de si mesmo. Da ironia e da desgraça também. Dizem que rir de si mesmo é como terapia, nos
faz entender bem melhor o que somos... ou o que não somos (leia-se aqui um
certo fatalismo e sarcasmo).
Não. Não se preocupem, esse texto não
vai ser recheado de disritmias cardíacas
nem lágrimas dramáticas. Vivemos em um mundo onde se engole tudo, e ele. O mundo.
Nos engole. Então não haverá drama. Haverá um certo humor trágico. Acho que
fica bem um certo humor trágico. É...
Pois bem. O nome dele é Eu poético.
Entenderam a jogada? Não? Essa eu não
vou explicar...
Levantou então e no banho, enquanto se
preparava para a gravata o carro e a vida de sempre. Estancou. Merda. Merda!!
Estava encrencado. Entrara na sua vida
algo indesejado. Sem querer, sem perceber... ou já tinha percebido? Claro que
já... mas o imediatismo da coisa é mais interessante, mais impactante...
Ele. O cara mais chato do mundo. Ele,
justamente ele, um homem de meia idade se viu vítima daquilo. Mas... o que é uma
meia idade? Qual é a idade toda?
Voltando para o drama então. Como ele, um homem já endurecido pelo tempo e
pelas mazelas da vida conseguira permitir tamanha bobagem?
O amor. Mas que merda!!! Pensava. Era
uma merda. E que não viessem com frases de efeito romântico e cheias de
frescura. O amor era uma merda! Era sim.
Chegava sem ser convidado, indivíduo folgado
como o capitão Rodrigo, mas o Rodrigo interpretado pelo Tarcísio, o Lacerda era
sofrível... (perceberam a tática de dispersão?) também não vou explicar...
Pois é. Chegava essa coisa. Cruel. Trazendo
junto, grudado na pele coisinhas baixas e medíocres como o ciúmes, e coisas
muito grandes como a dor. Dor singular. Não qualquer dor, mas aquela que vocês
bem sabem, ou em breve saberão. E tenho
pena de vocês.
E por que digo que o amor é uma merda? Porque
ele menospreza nosso cérebro. Gastamos tempo e dinheiro "treinando" o
desgraçado do cérebro para esse enfrentamento. Anos e anos. Ele mais do que
todos. O Eu Poético era um alucinado por esse tipo de treinamento. Livros e
mais livros. Horas e horas lendo e relendo. Se preparando para o grande
confronto. Seguro. Firme. Pronto. E quando vê. Não vê mais nada. Só o outro
lado e aquela dor maldita no peito. Pra
puta que o pariu com essas coisinhas de amor. Já não tinha idade. Queria que o
coração entendesse. O Cérebro insistia. O corpo todo preparava seminários para
que o maldito órgão entendesse. Mas nada. O coração é a parte mais burra do
corpo humano. Criatura imbecil. Insistente, eternamente juvenil. Infantil. O corpo
definha se enruga, e ele ali, débil mental, pulsando e pulsando como um
cachorrinho que balança o rabo para o dono. Patético, deprimente.
O álcool era bom para o amor. Afogava. Todo
ele. Mas não matava. Só anestesiava o animal.
E fazer o quê?
Óbvio. Era óbvio. Essa coisa de amor só
exige uma coisa do corpo e da alma. O sofrimento. A dor. Não há amor sem dor. Muita dor
sempre...
E é por isso que ele é uma merda. Claro que
é.
No espelho seu olhos de ver muitos
mundos o observavam. E tripudiavam dele. A carne que envolve o amor sempre é
mais nova, mais bela, mais viçosa... e outras carnes e corpos estão dispostos a
esses encontros. O amor é infantil, e os discursos prováveis desse amor são
também juvenis, e ele. O Eu poético. Tinha o coração patético. O discurso
afiado e cruel, já não estava mais lá. Onde se brincava de amar. Era um
monstro. Situado entre ideais e conceitos, teses e análises... estava longe, já
não estava mais lá. Por que aquela merda de sentimento insistia em açoitar sua
costas?
Açoitar costas já é meio dramático
demais...tinha prometido não cair em lugares comuns. Mas quando se fala em
amor, o tombo nos mesmos buracos é quase certo.
Pois bem. Enquanto amarrava a gravata. Nó
desesperado de enforcamento. Pensava. Não podia estar acontecendo. Não era
verdade. Puta que pariu. Não era verdade!
Bateu a porta de casa e entrou no carro.
A estrada. Um aperto no peito. Não podia ser dramático. Não queria ser
dramático. Não seria.
Mas no fundo... bem lá no fundo. Longe dos
diplomas e livros... existia um homem. Pequeno e frágil. Louco pra chorar.
E isso era uma merda!!!!
domingo, 10 de agosto de 2014
(As viagens de Ronísio) SOBRE AMIGOS
Um amigo. Dois. Muitos. É difícil. Falar sobre amizade mexe com sentimentos profundos. Coisas de fazer chorar. Lembranças. Coisas de fazer pensar. No profundo das coisas. Das ações que nos fazem. Somos o que fazemos. E nunca merecemos todos os amigos que temos. É muito. Para um corpo só. Para um coração só.
Os
amigos são os sorrisos. Confortadores. Debochados. Irônicos. Sorrisos-potência
que energizam nossa carne, nosso organismo. Sorrisos que têm o poder de fazer
brilhar nossos olhos. De chorar e rir. Os olhos nossos.
Encontra-los
não é tarefa fácil. Porque eles não são de esse encontrar. Não estão
escondidos, prontos para serem percebidos. Eles são de outra natureza. Amigos nascem.
Pelo olho. Pela voz. Pelo prazer de estar junto. E isso não depende de tempo e
espaço. Depende de alguma coisa muito anterior. Como se no início de tudo um
corpo fosse explodido. Galáxia em expansão. E quando cada pedaço desse antigo
corpo se aproxima se sente na própria carne. Eis a amizade.
Estes
dias fui pego por uma destas coisas de amigos. De amizades. Confesso que sou
emotivo e chorão... no escuro dos meus livros e de minhas letras. Na rua minha
cara é firme. Turrão. Cheio de manias, às vezes até meio grosseiro. “Quase um
ogro” como alguns amigos brincam.
Me
levaram de surpresa. Todos eles. Para uma viagem. De carinho e emoção. Minha imagem
com eles. Minha lembrança com eles. E isso é muito grande. É muito importante
para energizar qualquer coração. Potencializar a alma da gente.
Mesmo
não estando. Lá estava eu. Com todos eles. Ronísio. Era eu. Mas não era. Com eles,
junto com os meus amigos estava o que em mim era bom. Pois sabemos que os
amigos servem para isso. Para fazerem brotar de nós tudo o que é bom. É por
isso que precisamos deles. Para sermos melhor. Para vivermos melhor. O amigo é
como energia. Como o alimento. Nos faz viver de forma diferente e nos
transforma. E nos comove. Muito.
Ser
lembrado pelos amigos assume uma importância vital para estas relações sociais.
Sentimos como se fôssemos além do que somos. Melhores do que somos. Acreditamos
muito mais em nós mesmos. E inclusive esquecemos, um pouco, o quanto somos humanos,
frágeis, mesquinhos, maus, egocêntricos e tudo o que também habita o corpo de
um ser humano.
Ter
amigos é apaziguar estes outros demônios que nos habitam e sorrir para a vida.
Ver o nome da gente em um guardanapo de papel em uma pizza nos comove até as
lágrimas. Mesmo que elas não saiam. A gente tenta sempre segurar. Ser forte. E até
nisso os amigos nos ajudam. Nos ensinam que ser forte também é chorar.
E
confesso a todos vocês que derramei algumas. Lágrimas escondidas. Tenho que
manter a minha “fama de mau”.
Queria
dizer muitas outras coisas. Mas talvez o
silêncio seja muito mais efetivo do que minhas palavras.
Aos
amigos meu carinho. Aos amigos minha gratidão. E meu sorriso torto e
engraçado...
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