Escrever?

"Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga" (Gilles Deleuze)

quarta-feira, 14 de maio de 2014

SOB PALAVRAS



O nome era Inácio. Da Silva Romão e Filho. O nome. Todo. E tudo era o nome. Respeito e conhecimento. Dos outros todos. Do povo. Pois era mecânico. Das bicicletas todas das cercanias.  Duas rodas era com ele. Sabia tudo. Tudo dos procedimentos de vida e morte das bicicletas. De todas. Conhecia pelo barulho, pela cor, pela forma, pelo som da buzina ou sino. Era o conhecedor das bicicletas. Seu Nácio das bicicletas. O famoso e bem quisto cidadão do bairro das folhas baixas das árvores poucas da rua sem asfalto ou pedra. Seu Nácio das bicicletas da Rua do Buraco.
Crente em Deus. Da igreja e do padre. Mesmo que cada coisa fosse cada coisa. Pra ele tudo era uma coisa só. Uma só coisa tudo. Tinha esse problema. Simplicidade em demasia. Ingenuidade em doses cavalares. Mas era um homem bom.
Mulher e dois filhos. Olga, Isildinho e Isaurino. A família. Casa razoável. Na esquina. Casa em esquina era mais considerada. “Moro na esquina, bem ali... o dedo apontando... na esquina.” Lugar de respeito e de poder. Os esqueletos das bicicletas atirados ou pendurados pelas paredes da casa. Pneus e aros por todo o lado. Borracha. Cheiro de pneu, cheiro de borracha.
Dona Olga era trabalhadora. Casa, roupa, comida, merda do cachorrinho no pátio, comidinha para o canário que nunca cantou nada. Nunca cantava na gaiola. O rádio era maior, imenso. O som também. E afogava e angustiava o bichinho. Recusara a cantar. Nem amarelo era mais. Cinza. E Olga. Sentada. Seu horário. Dela. Único. Morria no sofá. No horário das palavras. Ditas pelos que podiam dizer. Palavras livres. Livres de qualquer responsabilidade. Palavras faladas com o dedo. Em riste. Apontando e julgando.  Ela gostava. Dona Olga. Isildinho também. Daquele horário. Era o momento de “aprender” as coisas. “Viu só? Falava Dona Olga, agarrando forte o ombro de Isildinho. “Viu só, viu só... é isso que eu acho. É isso que eu acho. Que mulher inteligente!”
A televisão era o rosto. Sério e respeitável da verdade. E falava de justiça. De força. De como a comunidade devia reagir. Aos bandidos. “Essa cambada.” Prender, bater, amarrar com arame. Mereciam. Eram os maus. A comunidade era do bem. Os bons. Era a guerra. O povo devia estar armado. Pra resistir aos bandidos. Pra matar os bandidos.
Inácio era calmo. Como as bicicletas. Só se moviam se houvesse uma força atuando nos pedais. Outra força. Um poder exterior. E foi assim. E era assim. Enterrado nos pedais e nas correntes. Correias. Não havia bandidos, não havia o resto. Só bicicletas, selins, quadros, guidões, marchas. Tinta, óleo. Borracha. Muita borracha. Não havia além disso. Da bicicleta e do que ela lhe dava. Seu próprio nome, alcunha. Poder.
Isaurino era grande. De futebol jogador e apreciador. Gritava, xingava. Tinha posição, time, torcida. Organizado. Chorava segurando o símbolo do time, seu símbolo de força, de identidade, de pertencimento, de importância. Era quem era pelo fato de ser torcedor de seu time. Sua igreja. Seu discurso. Saurinho como os amigos chamavam, gritavam. Gordo e suado. Sorridente. Dente branco. Olho branco brilhante. Sempre feliz. E bêbado. Seu Nácio não bebia. Água sim. Apenas. Saurinho todas. O álcool. E já não sorria. Ameaçava e brigava.
Foi assim. Que todos. A família. Matou. Trucidou.
Ouviram a voz da televisão. Isildinho na Internet confirmou o inconfimável. E mataram. Já não eram a família. Eram as feras. Eles e os outros. Tijolo e pedra. E palavras mais pesadas. Agudas. E sangue e desespero. Dona Olga de pedra na mão. Saurinho gritando e arrastando o corpo com fúria e raiva e álcool, Isaurinho saltando e ofendendo. Seu Inácio cruzando por cima. Com rodas. Bicicleta. Sua arma, comida e vida.
A mulher não era. Outra. Quando a polícia chegou, dona Olga ainda batia, clava de madeira, grunhia e chamava de puta, o sangue na arma, no cadáver e no olho.
Enquanto isso na casa de um vizinho. A tv ligada. E uma voz feminina séria e respeitosa falava “ainda” em justiça. E em mãos.
E enquanto era levado pela polícia seu Nácio das bicicletas não entendia nada. Nem dona Olga, muito menos Isildinho... Isaurinho vomitava.




segunda-feira, 21 de abril de 2014

"O Teu Riso" (Pablo Neruda )

GRITARAM-ME NEGRA



BLACK & WOMAN 1 (Eugenio Barba & Victoria Santa Cruz)

LIRA - Nada a fazer

KARINA BUHR - NAO ME AME TANTO

Guri no buraco

GURI NO BURACO
Ronie Von Rosa Martins




Era um buraco. Um belo e escuro buraco. Sem medo enfiou a mão que se perdeu no outro mundo. Um belo buraco. Pensou.
A possibilidade estava dada. O buraco o olhava. Olho de escuro brilhante e sedutor. Profundidades abissais, aventuras inenarráveis. Os lados. Observou. O vazio da vida real. Nada. Só o mesmo. De sempre. Coisas e mais coisas. Pessoas e mais pessoas. Coisas de pessoas. Reações de pessoas. Sentimentos de pessoas. Muito chato. Um mundo dominado e resumido pela pessoalidade.
Não havia laranja, nem a cerca do vizinho. Estava só. No campo. Ele e o buraco enorme. Olho que refletia  a intensidade de seu prazer e curiosidade.
China?
Diziam que todo buraco ia dar na China. Sorriu ao pensar em visitar a China, aquele mundo amarelo cheio de gente amarela com aqueles sorrisos enormes cheios de dentes “né?”.
Mas e se não gostasse? E se fossem uns bobalhões e só quisessem comer arroz? Tinha horror de arroz. Só se fosse com batatinha frita, feijão e bife. Mas só arroz? Vai ver que era por isso que eram amarelos. Mas pra ser amarelo deveriam comer milho, e não arroz.
E se fosse um túnel para um outro mundo. Um reino encantado cheio de fadas e gnomos. Todo mundo andando com aquelas calças coladinhas na bunda e de botinhas. Tudo verde. E de bonezinho.
Seria piada para toda a rua. Não, não queria virar gnomo, sem essa de calça apertadinha. Estufou o peito. Era um homem. Tinha sete anos. Ia pegar muito mal para a sua reputação. O que iam dizer lá no jardim. Que era maricas? Teria que brigam com o Paulinho Toca-flauta. Ele tava sempre se arriando neste ou naquele. Ia apanhar. O Toca-flauta era enorme e mau.
Ele é que devia entrar no buraco e ir pra China. Se empanturrar de arroz até estourar. Sorriu ao pensar no menino inchando com a boca cheia de arroz. De pois cada vez que enxergava o Toca-flauta caia na risada. Levara até uns tapas do outro, mas não adiantara nada. Acabou que quando Paulinho avistava o menino, dava um jeito de se esquivar.
O resto da gurizada percebeu as tramóias de escape do Toca-flauta e acabaram trocando o apelido do Paulinho para Paulinho Tô-fora, pois cada fez que encontrava o menino, dava um jeito de sair de fininho.
Mas voltamos ao buraco. Entrou. De cabeça. Escuro. Apertado. O coelho da Alice abanou para ele. Ele sorriu. Lembrava da história. A avó contava. Lia um livro antigo. Cheio de dezenhos. Gostava do coelho. Mas gostava mais do Chapeleiro Maluco. Será que existiam mesmo? A vó contara que a Alice acordou e percebeu que tinha sonhado. Ele sorriu. Ninguém sonha assim tão bem. Nem a Alice. Nem mesmo a Emília. Aquela boneca de pano. E o Visconde. Paraou. Pensou. Até que o Visconde e o Chapeleiro ... será que eram irmãos. Não. Não podiam. Ou podiam?
Mas as pernas não podiam. A cabeça queria entrar além, mais fundo. Invadir a terra, conhecer as entranhas. Mas as pernas presas na superfície não permitiam. Correntes que o mantinham neste mundo de cá. Tentou voltar. A cabeça cheia de terra. O nariz sujo. A roupa imunda. Preso. Preso no buraco. Entre dois mundos. E  agora?
O choro veio. De mansinho, logo se transformando em fúria e pânico. Pernas encenando todo o seu desespero.
Só sentiu quando algo segurou suas pernas e o puxou para fora. Ainda chorando. A mãe o segurou no colo. Sentada na grama. Depois deitados em abraço comovente. Um sorriso que era o mesmo descansava tranqüilo no rosto de mãe e filho.