Escrever?

"Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga" (Gilles Deleuze)

domingo, 11 de janeiro de 2015

CHUVA




Seria interessante. Escorrer. Correr silencioso. Infiltrando-se em toda matéria, levando outras...
Ser água. Em tudo estar.
Menos nesta folha. Neste texto. Longe do meu espaço. Quadrado. Espaço que delimita meu corpo físico, clínico. Meu texto. Contexto.
A janela chora minha angústia. E dissolve o vidro em memória aquosa. Lembrança. A água entrando... conectando em sinapses  uma existência em que o fragmento é a verdade.
A palavra não anda. O texto não caminha em estrada definida... se perde. Perde-se no sem palavras da chuva. Nuvem.
Escura em devir permanente. Raios? Trovões?
A secura desta peça me sufoca. A tela do computador dociliza a alma. A raiva.
O homem precisa de raiva. Precisa de indignação. Assim como o mundo precisa da tempestade. Da chuva...
Nem chover consigo.  A água me é escassa; no corpo e na alma. Velho. A idade seca o homem. Drena a vida. A água...
Ainda lembro... lembro das lágrimas juvenis. Do rosto encharcado e das dores advindas de minhas desilusões amorosas. Água. Saudade da água.
Hoje tenho o texto. a palavra e a memória. Poço profundo de onde bebo alguma vida. Escassa. Alguns breves sorrisos.
A solidão não irrita ninguém. Pelo menos não a mim. O que mi irrita é a ausência de vida. Essa escassez da água no corpo. Esse esvair de intenções. Sonhos.
Meu texto procura a liquidez da chuva... fluidez.
A terra está encharcada. A água faz possas. Liga as possas e faz pequenos lagos que escorrem. Fluem. Luzes no céu. Barulho. Estrondo de vida.
Minha folha está morta. Branca e ousada, me desafia. Me julga em sua possibilidade de conter o reflexo da vida em letras e idéias. E nua e alva e crua zomba da decrepitude da minha criatividade. Está frio?
Sempre está frio para os velhos. E isso é uma merda.
Decidir não fácil. Fazer escolhas...
Mas quando não há escolhas é fácil. Fluir. Apenas fluir...

Na folha a palavra chuva. Título e texto. Condensação máxima da história de uma vida. Chuva.

Receber a água é doloroso para os velhos. Gelada. Forte. Poder.
Escorrer para dentro e além de qualquer corpo físico. Percorrer as distâncias possíveis, e depois elevar-se em vapor. Vaporizar-se.

Deitado no chão ele ainda pareceu ouvir gritos de menino que num passado além do real gritava e dançava em uma chuva anterior...
Sorriu ao perceber que a criança era ele.




terça-feira, 25 de novembro de 2014

Rodar

Caminhar é bom. Rodar é diferente. Nem tão rápido. Medida certa, tanto lenta quanto no furor do vento. O movimento.
É do coração... e das pernas que cansam numa alegria satisfeita. Simetria com chão, estrada e sombra. A sombra segue sempre e o olho à sombra. Segue também. E é o tempo da roda. Movida pela vontade. Músculo e paisagem. Pois o que se vê também é a bicicleta, e o passeio, e a passagem e o movimento todo. E o vento. E o sol.
O rosto é visto e a voz ouvida. Do outro que no contrário movimento faz que fica e continua em outro ritmo.  Os carros não contam. Frios e limpos. Rápidos e cheirando a gasolina. Ovos de lata que chocam as vaidades de seus motoristas. Que nada vêem. Embevecidos que estão por seus próprios reflexos que interpretam importâncias para pequenos espelhos. Os carros não contam.
Contam as árvores todas e a grama que nasce. E a roda que na velocidade exata percebe um verde que se singulariza de outros tantos verdes que já não são os mesmos. Nem os sorrisos. Diferentes todos. E as caras fechadas. Todas diferentes. E belas. A visão libertada de janelas. Olhos que vêem, mesmo no precipitar das duas finas rodas, rugas e vidas que se enredam, se enroscam...
Há também o som. Ou o fone e a escolha sonora. Música para rodar. Música para se perder para além do asfalto. Fugir do asfalto. No chão e no buraco. Deslizar. Fluido. Parar para atravessar a tartaruga, vislumbrar o sofá antigo e vermelho jogado inconseqüentemente no pequeno riacho, que serve de assento para todos os fantasmas e criaturas do campo. Se o alcançasse, também descansaria alguns momentos ali. Mas, agora, é templo sagrado de mistérios e ninho. De pássaros ou cobras. Somos todos. Um pouco de cada. Cobras e pássaros. Voamos e rastejamos. Então rodar. Mesmo que o braço canse e a perna chore. O mundo está esperando. Mesmo o pequeno espaço que conseguimos alcançar. A quantidade de terra que conseguimos atravessar. A ladeira que nos ameaça e se insinua. E o pneu que murcha. E as costas que cansam.

É o espaço e o tempo outro. Longe ficam o resto todo. Prisões e apreensões sociais, vaidades e obrigações, deveres aparências. Só a sombra aprendendo a ser nada. A bicicleta e o homem. Metamorfose de carne e metal na construção interessante de um nada necessário. Deserto. Repleto de tantas coisas, mas sempre vazio. Aberto para todos os caminhos impossíveis.