Escrever?

"Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga" (Gilles Deleuze)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Resistindo




Há um vazio. Cheio de mim. Oco. Eu. O vazio?
Corpo. Porção de mim no todo vazio. Oco.
Copo. Porção de vinho. Em mim. Assim.
Em mim. Um pouco de todo o resto. Nada.
Todo o eu. Assim. Um copo. Oco. Vazio.
A unha não gruda na parede. Nem sustenta o peso do corpo que sofre. Arranha apenas a superfície do corpo. Que prende. Repreende.
A unha não rasga nem fura essa estrutura. Idêntica. Cara. Meu rosto que é o teu. Que é o nosso. Único rosto. De sorriso triste. De olhos desligados. Não, a unha não salva, nem solta. Nem defende a unha. Arranha apenas. Recusa, renega, reclama.
A unha reclama na parede do corpo. Reclama com fúria, em linhas de sangue. Os caminhos pra fuga. Pra festa. Pro vôo.
Mas o corpo não deixa. O corpo e seu peso. Sua ordem. Organismo. Cinismo do rosto. Estrutura. Consumação das paredes. A altura do muro.
Um murro? Nem murros nem unhas. Profunda e ancestral é a construção. Identidade, atitude, tradição, memória... Cimento duro.
Então vinho para regar o corpo que chora...e prende. Álcool pra encantar a estrutura que oscila. Drogas pra amaciar a fúria do corpo, seus limites, suas esquinas escuras, seus espaços frios suas masmorras...
Roupas pra cobrir a vergonha do corpo. Panos pra encobrir. Panos para produzir o próprio corpo. Muitos panos para a nova estética, para a produção do novo rosto. Cores também para alegrar e colonizar o corpo.
Marionete. Fantoche. O corpo dança a valsa que ouve e acredita. E no fundo. No vazio. Eu. Ou nós. E o oco do copo. E o vazio.
Então que venha a palavra. Que lavra o terreno baldio. Frases, vírgulas, verbos. Letras! Escreva, fale, comunique.
Repita o eco. Cante o refrão. Sorria! Abrace o irmão. Aceite...

Mas nas paredes do corpo, nas profundezas do corpo...  unhas....

segunda-feira, 18 de maio de 2015

RODAR


      

Caminhar é bom. Rodar é diferente. Nem tão rápido. Medida certa, tanto lenta quanto no furor do vento. O movimento.
É do coração... e das pernas que cansam numa alegria satisfeita. Simetria com chão, estrada e sombra. A sombra segue sempre e o olho à sombra. Segue também. E é o tempo da roda. Movida pela vontade. Músculo e paisagem. Pois o que se vê também é a bicicleta, e o passeio, e a passagem e o movimento todo. E o vento. E o sol.
O rosto é visto e a voz ouvida. Do outro que no contrário movimento faz que fica e continua em outro ritmo.  Os carros não contam. Frios e limpos. Rápidos e cheirando a gasolina. Ovos de lata que chocam as vaidades de seus motoristas. Que nada vêem. Embevecidos que estão por seus próprios reflexos que interpretam importâncias para pequenos espelhos. Os carros não contam.
Contam as árvores todas e a grama que nasce. E a roda que na velocidade exata percebe um verde que se singulariza de outros tantos verdes que já não são os mesmos. Nem os sorrisos. Diferentes todos. E as caras fechadas. Todas diferentes. E belas. A visão libertada de janelas. Olhos que vêem, mesmo no precipitar das duas finas rodas, rugas e vidas que se enredam, se enroscam...
Há também o som. Ou o fone e a escolha sonora. Música para rodar. Música para se perder para além do asfalto. Fugir do asfalto. No chão e no buraco. Deslizar. Fluido. Parar para atravessar a tartaruga, vislumbrar o sofá antigo e vermelho jogado inconseqüentemente no pequeno riacho, que serve de assento para todos os fantasmas e criaturas do campo. Se o alcançasse, também descansaria alguns momentos ali. Mas, agora, é templo sagrado de mistérios e ninho. De pássaros ou cobras. Somos todos. Um pouco de cada. Cobras e pássaros. Voamos e rastejamos. Então rodar. Mesmo que o braço canse e a perna chore. O mundo está esperando. Mesmo o pequeno espaço que conseguimos alcançar. A quantidade de terra que conseguimos atravessar. A ladeira que nos ameaça e se insinua. E o pneu que murcha. E as costas que cansam.

É o espaço e o tempo outro. Longe ficam o resto todo. Prisões e apreensões sociais, vaidades e obrigações, deveres aparências. Só a sombra aprendendo a ser nada. A bicicleta e o homem. Metamorfose de carne e metal na construção interessante de um nada necessário. Deserto. Repleto de tantas coisas, mas sempre vazio. Aberto para todos os caminhos impossíveis.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O velho que lia





Sábado. Na janela o sol não se intimidava com a tentativa de impenetrabilidade. Pelas frinchas dava jeito de atingir-lhe o corpo.
Na cama. O corpo permanecia. Largados os braços. Pernas também. Cobertas no desalinho do pesadelo. O escuro teimava em permanecer.
O despertador já havia gritado. O galo também. O mundo já havia gritado. E ele estava atrasado.
Atrasado para o grito do corpo.
No chão. O livro. A leitura que fizera à noite. Lia para espantar seus demônios. Armadilhas infalíveis para aprisionar criaturas das trevas. Abria o livro nas madrugadas e esperava que todos os seus medos se manifestassem. E os consumia em forma de texto. Palavra. Era um devorador de demônios. O maior de todos eles.
Aprisionava em seus livros todas as suas angústias.
E em sua pequena biblioteca, às vezes ouvia os sussurros e infâmias que os prisioneiros lhe endereçavam.
O mundo era muito estranho.
Velho. Tão velho quanto a quantidade de rugas que rizomaticamete envolviam toda a sua pele.
Já em pé. Sorvia o chimarrão tão quente e amargo. Apreciava a pequena bruma que se esvaia do calor da água e da erva da cuia. O cheiro... Solidão tem cheiro?
Caminhou até o quarto. Apanhou o livro do chão e cuidadosamente o colocou na estante.
A neta um dia lhe perguntou porque vivia sozinho “quem disse que estou só?” respondeu sorrindo. O filho, homem de certa obesidade aproximou-se tentando argumentar sobre os perigos de morar sozinho, questões de idade e limitações do corpo, e ele sorria. Quando o filho afastou-se. O velho pegou a menina no colo e contou-lhe as histórias de seus livros. Dos seus medos e angústias aprisionados nas linhas dos textos... os olhos brilhavam com a intensidade da admiração, surpresa e medo. “Eles estão presos?”
O sorriso do velho se abria. “Todos eles.”
“Mas e se eles fugirem?” “Às vezes acontece. Mas toda a noite eu os caço novamente e os apanho. E os guardo ali.” O dedo apontando para as estantes. O coração da menina pulsava. Os olhos esbugalhados faiscavam de excitação e temor.
Então o tempo e a morte vieram, e as flores, e as rezas, e as lágrimas e as dores.
E nestes interstícios da vida, quando a memória parece insistir em abrir uma brecha no muro da realidade e do presente, ela, a menina que agora já não era lembrava do avô.

E toda vez pela manhã quando ia observar o pequeno Diego. O filho. Levantava do chão o espesso livro de contos de fadas. “Cuidado mãe.” Ainda sonolento ele dizia. “Eles podem fugir.”

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Pirulitos e velhos




Era  um fusca. Branco. Antigo. Dentro ela. Jovem. Bonita. Simpática. Na rua ele. Bicicleta e suor. Fone no ouvido. Música encharcando corpo e espírito. Corpo e espírito no corpo musical do momento. Um olhar. Simples e curto. Distante e tão incrivelmente perto.  E os carros, e as pessoas, e o tempo sem dó. Dor. E o nunca mais. E o para sempre.
O agora é diferente. Velho e sem bicicleta. Reivindicação dos joelhos. Das costas e do sem brilho dos olhos seus.  Agora sem fone nos ouvidos. Já não ouvia nada. O som era o da imagem. Inventava sons para o que via. E era o banco da praça. Sempre ali. Fugir sempre da casa. Ser velho exigia esse esforço. Para o bem de todos. Dele mesmo.
As bicicletas passavam. E ele ficava, mas ia também. Girava no cérebro, os pedais e o esforço. E lembrava do vento na cara. E o suor. Do coração batendo forte... pôs a mão no coração para sentir. Nada. Não sentia muita coisa.
O menino chupando um pirulito sentou ao lado. Olhos grandes de entender os velhos. "você tá triste?" Foi a pergunta. Os olhos de já não entender as crianças se voltaram pro menino. "Não." A criança levantou-se, tirou um pirulito do bolso e entregou. Correu para apagar sua imagem dos olhos antigos. Foi-se. Na mão o doce. Os olhos vetustos e a rua que ia e voltava sempre.
A senhora com bolsas passou e sorriu. O pirulito era cômico... ou trágico. E ele ainda não sabia o que fazer. Drama ou comédia? Não gostava muito de comédias, mas já estava velho demais para  dramas. Para o drama é necessário um coração vigoroso e cheio de sentimentos. Seco era o dele. Antigo.
Do outro lado da rua um casal discutia. O drama. Jovens perdidos em intensidades. Belo e estranho. Percebia-se a atração. Gesticulavam furiosos, mas pediam tudo um do outro. Amor? O que seria o amor. Ela fazia menção de ir. Ele segura-a do braço, moderava o tom da voz, suplicava. Ela chorava. Lágrimas e dizia palavras que a rua engolia. Se abraçavam. O beijo. Os corpos juntos. Vibração. E iam também. Mão ligadas, sorrisos envergonhados e felizes. Mais uma vez voltavam. Quantas vezes ele os vira ali. Discutindo e voltando? Várias.
Seria aquele o lugar ideal para resolverem seus problemas amorosos. Haveria um lugar adequado? Não sorriu. 
Uma leve brisa soprou algumas folhas caídas. Giraram no ar. Bailado contemporâneo e pós-moderno. Bailarinas bêbadas e alucinadas. Frenéticas. E caíram. Todas juntas. Mortas novamente. As folhas. E ele. Pensava que nunca aprendera a dançar. Acompanhar o ritmo de uma música. A potência de uma coreografia, ritual de acasalamento e namoro. Sempre fora difícil. Dançar era movimentar o corpo, vulneralizar-se para as forças inusitadas da música. E ele era pedra. Sempre fora. Duro. Tentara algumas vezes. Mas era um desastre. Parou. E ali estava.
O joelho doía. Sempre doía. E as costas.
E o pirulito doce. E um certo constrangimento. A infância parecia querer fazer troça de sua mão gelada e enrugada. Jogar fora? Não parecia certo. Esperar outra criança? Não seria confundido com esses miseráveis assediadores de menores? Jogar fora. Afinal ela já não havia ido? A infância?
Era colorido. E os olhos antigos e secos observavam. O colorido do doce. Seria o menino um anjo ou um demônio? As crianças sempre eram os  dois. Anjos e demônios. Ele fora. Medonho quando pequeno. Correr na rua. Jogar taco com os amigos. Bolinha de gude. Queria esboçar um sorriso. Mas não. A boca estava selada para esses prazeres. E nem a memória conseguia desenferrujar aquela porta antiga.

E então ele viu novamente. Não era o fusca de quarenta anos atrás. Era uma cadeira de rodas. Uma senhora grisalha empurrava outra um tanto mais velha. Rosto fechado. Olhos apertados pela claridade do sol. Triste. As duas. Mãe e filha. A filha e o fardo. O fardo e a filha. Ela sabia. Ser empurrada. Direcionada. A cadeira. Mesmo com rodas era uma limitação. "Tudo bem mãe?" A voz da filha. E a rua em silencio parecia conspirar para que ele ouvisse tudo. Ou nada. A outra mulher não respondeu. Triste. Mas os olhos se encontraram. Breve instante. Segundo. Nele um estremecimento. Algo estranhamente arrepiante. E rapidamente ele enfiou o pirulito na boca. Plástico e tudo. A cena congelou. Segundos, e o silêncio foi rompido pela gargalhada solta e desesperada da mulher. Em seguida ele se precipitou a rir também, com todas as suas rugas e dores. Estavam vivos pensou. E continuava a rir enquanto ouvia ao longe as gargalhadas da mulher na cadeira de rodas. Estavam vivos!

domingo, 11 de janeiro de 2015

CHUVA




Seria interessante. Escorrer. Correr silencioso. Infiltrando-se em toda matéria, levando outras...
Ser água. Em tudo estar.
Menos nesta folha. Neste texto. Longe do meu espaço. Quadrado. Espaço que delimita meu corpo físico, clínico. Meu texto. Contexto.
A janela chora minha angústia. E dissolve o vidro em memória aquosa. Lembrança. A água entrando... conectando em sinapses  uma existência em que o fragmento é a verdade.
A palavra não anda. O texto não caminha em estrada definida... se perde. Perde-se no sem palavras da chuva. Nuvem.
Escura em devir permanente. Raios? Trovões?
A secura desta peça me sufoca. A tela do computador dociliza a alma. A raiva.
O homem precisa de raiva. Precisa de indignação. Assim como o mundo precisa da tempestade. Da chuva...
Nem chover consigo.  A água me é escassa; no corpo e na alma. Velho. A idade seca o homem. Drena a vida. A água...
Ainda lembro... lembro das lágrimas juvenis. Do rosto encharcado e das dores advindas de minhas desilusões amorosas. Água. Saudade da água.
Hoje tenho o texto. a palavra e a memória. Poço profundo de onde bebo alguma vida. Escassa. Alguns breves sorrisos.
A solidão não irrita ninguém. Pelo menos não a mim. O que mi irrita é a ausência de vida. Essa escassez da água no corpo. Esse esvair de intenções. Sonhos.
Meu texto procura a liquidez da chuva... fluidez.
A terra está encharcada. A água faz possas. Liga as possas e faz pequenos lagos que escorrem. Fluem. Luzes no céu. Barulho. Estrondo de vida.
Minha folha está morta. Branca e ousada, me desafia. Me julga em sua possibilidade de conter o reflexo da vida em letras e idéias. E nua e alva e crua zomba da decrepitude da minha criatividade. Está frio?
Sempre está frio para os velhos. E isso é uma merda.
Decidir não fácil. Fazer escolhas...
Mas quando não há escolhas é fácil. Fluir. Apenas fluir...

Na folha a palavra chuva. Título e texto. Condensação máxima da história de uma vida. Chuva.

Receber a água é doloroso para os velhos. Gelada. Forte. Poder.
Escorrer para dentro e além de qualquer corpo físico. Percorrer as distâncias possíveis, e depois elevar-se em vapor. Vaporizar-se.

Deitado no chão ele ainda pareceu ouvir gritos de menino que num passado além do real gritava e dançava em uma chuva anterior...
Sorriu ao perceber que a criança era ele.